Título: PF prende deputado e acusa Garotinho de integrar quadrilha
Autor: Werneck, Felipe; Auler, Marcelo
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/05/2008, Nacional, p. A4

Segundo denúncia, ex-governador mantinha Lins à frente da polícia, mesmo sabendo de suas ligações criminosas

A Polícia Federal, em operação conjunta com a Procuradoria Regional da República do Rio, prendeu ontem o deputado estadual Álvaro Lins (PMDB), ex-chefe de Polícia Civil dos governos de Anthony Garotinho e Rosinha Matheus. A prisão ocorreu durante a Operação Segurança Pública S.A. Ele é apontado como chefe de uma quadrilha que usava a Polícia Civil para receber favores. Lins, alguns de seus familiares e sete policiais a ele ligados foram denunciados pelos crimes de corrupção, facilitação de descaminho (possibilitar entrada de mercadorias importadas sem pagamento de impostos), contrabando, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada.

Na mesma denúncia foi incluído o ex-governador Anthony Garotinho pelo crime de formação de quadrilha armada. Segundo os procuradores regionais da República Mauricio da Rocha, Paulo Fernando Correa e Cristina Romano, Garotinho mantinha Lins à frente da Polícia Civil, mesmo sabendo de suas ligações criminosas. Os procuradores garantiram, porém, não ter sido provado que o ex-governador tenha se beneficiado com a situação. Eles também decidiram não incluir Rosinha ¿nesta grave acusação de organização criminosa, porque não há nada contra ela no que foi coletado até agora¿.

Além de Lins e Garotinho, foram denunciadas 14 pessoas. Oito são policiais ligados ao deputado estadual, três deles delegados de Polícia Civil - Ricardo Hallak, que o substituiu no cargo de chefia, Luiz Carlos Santos e Daniel Goulart - e mais cinco inspetores e detetives.

Entre os parentes de Lins foram denunciados sua mãe, Amaélia, a mulher, Sissy, o pai dela, Francis Bullos (vereador da cidade de Barra Mansa), a mulher dele, Vanda de Oliveira Bullos, a avó de Sissy, Maria Canali Bullos, e a ex-mulher do deputado, Luciana Gouveia dos Santos.

Segundo os procuradores e a Polícia Federal, todos serviram de laranjas para o parlamentar na lavagem do dinheiro que teria recebido por meio de corrupção. Ele comprava imóveis e outros bens em nome desses parentes.

Lins foi preso no início da manhã em seu apartamento em Copacabana, na zona sul. Policiais federais chegaram às 6 horas com mandado de busca e apreensão assinado pela juíza Márcia Helena Nunes, do Tribunal Regional Federal - por ser deputado ele tem direito a foro especial. Os policiais recolheram documentos e celulares e saíram do prédio às 9 horas, conduzindo o parlamentar no banco de trás de uma caminhote.

Pelo fato de ter mandato político, Lins só pode ser preso em flagrante e por crime inafiançável. Por residir em imóvel comprado com recursos de que supostamente não dispunha por meios legais, a polícia alegou que ele estava praticando lavagem de dinheiro. O apartamento, adquirido em 2005 em nome de Maria Bullos, custou R$ 1,392 milhão e Lins recebia menos de R$ 8 mil como chefe de polícia. A investigação mostrou que Maria Bullos, desde 1998, era isenta na Receita Federal e, a partir de 2002, foi incluída como dependente do filho.

Segundo as investigações, Lins e seus aliados teriam transformado a chefia de Polícia Civil em balcão de negócios. O setor de inteligência da PF conseguiu o depoimento do delegado Maurício Demétrio Afonso Alves, que foi retirado da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, em 2002, por ter feito a prisão de um gerente de supermercado. Segundo a investigação, o governo do Estado recebia ajuda da associação dos supermercados para o programa Cheque Cidadão.