Título: Negociação não interessa a Uribe
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Fonte: O Estado de São Paulo, 28/05/2008, Notas e Informações, p. A3
Praticamente coincidindo com o 44º aniversário do surgimento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), tivemos, domingo, a confirmação da morte do seu fundador e jefe máximo Manuel Marulanda, o Tirofijo, aos 77 anos, e o anúncio de que o seu sucessor é o ideólogo Alfonso Cano, 52, líder da ¿ala política¿ da organização - que deseja negociar com o governo a legalização do bando terrorista como partido político. Querem, em outras palavras, que o presidente colombiano, Álvaro Uribe, suspenda sua vitoriosa ofensiva contra a narcoguerrilha, iniciada em fins de 2003, e inicie o diálogo com as lideranças da linha tida como moderada do novo comandante, que tem para oferecer-lhe, em troca da legalização, a deposição das armas de um exército que já dominou grande parte do território colombiano, hoje reduzido a uma quadrilha de bandoleiros em debandada pelas selvas colombianas.
Razões humanitárias explicam por que entre os primeiros a defender essa alternativa - a favor da qual decerto se formarão pressões internacionais - estão os que se concentram na libertação da refém-símbolo Ingrid Bettancourt, a seqüestrada candidata presidencial franco-colombiana, com a saúde gravemente abalada por seis anos de desumano cativeiro. Mas é inadmissível que fale em negociações de paz com os farquistas o ex-presidente Andrés Pastrana, antecessor imediato de Uribe. Aparentemente, ele se esqueceu do fiasco da sua tentativa de atrair a guerrilha para um entendimento, entregando-lhe, como zona desmilitarizada, uma área de 42 mil km² do país. As Farc retribuíram com um diktat que só poderia ser recusado: o governo que cumprisse as condições que impuseram, nenhuma delas negociável, e ponto final.
Pode-se argumentar que no mandato de Pastrana (1998-2002) a guerrilha parecia segura, controlando grande parte da Colômbia, e hoje definha a olhos vistos. Mas a sua desintegração vem do êxito da estratégia linha-dura adotada por Uribe, o único líder de seu país a identificar a verdadeira natureza do inimigo - que só entende a linguagem da força - e a agir de acordo. Apoiado pela esmagadora maioria da população, o ¿Plano Patriota¿ de Uribe reduziu os efetivos do desmoralizado movimento de 17 mil para 9 mil, atingiu em cheio os seus escalões intermediários, vitais em qualquer força armada, confinou-os aos remotos rincões da fronteira, em plena floresta, e os obrigou a montar acampamentos no exterior, como o que Bogotá bombardeou em março último no Equador, abatendo o número dois das Farc, Raúl Reyes.
Desde então, os insurgentes-traficantes, que obtêm da droga mais de US$ 100 milhões por ano e envolvem no negócio 65 de suas 110 unidades operacionais, só acumulam perdas. Ivan Ríos, do secretariado do bando, como o novo dirigente Alfonso Cano, foi morto pelo chefe de sua guarda pessoal, que em seguida se entregou, atraído por uma recompensa de US$ 2,7 milhões. Pouco depois - para não morrer de fome, ao que contou - se rendeu ao Exército a sanguinária Nelly Ávila Moreno, a Karina, do topo da lista de procurados do governo - acusada pelo assassinato do pai de Uribe. E de há muito não há notícia de alguma incursão de grande porte das Farc. Por que, então, deveria Uribe afrouxar a corda que as sufoca?
Mao Tsé-tung ensinava que a insurgência deve se preservar, recuando, sempre que for nítida a sua desvantagem no campo de batalha; deve fustigar o inimigo quando ele estanca; e deve atacá-lo com todas as forças quando retrocede. É a lição que se aplica à situação colombiana. Além disso, não é de excluir que os chefes políticos e militares das Farc se entredevorem, assim como não está claro até onde - ou mesmo até quando - irá a autoridade de Alfonso Cano.
Os dados da realidade colombiana respaldam a decisão de Uribe de dar tempo ao tempo. Ele não tem qualquer interesse em se engajar, agora, num diálogo que, ao fim e ao cabo, provavelmente será inevitável, sobre o item prioritário da agenda: a libertação dos reféns em poder da guerrilha. Somente em troca de prisioneiros Uribe poderia fazer algumas concessões, na verdade, não muito distintas das que anunciou há meses.
As Farc estão flagrantemente debilitadas, mas não o suficiente ainda para que o governo possa reduzir sua intransigência.