Título: A partir de agora, será difícil o G-7 tomar decisões sem ouvir os Brics
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/05/2008, Economia, p. B12
Brasil, Rússia, Índia e China decidem coordenar ações para ganhar peso nas decisões globais; alta do petróleo é um dos temas
O ministro das Relações Exterior do Brasil, Celso Amorim, avisou ontem que os sete países mais ricos (G-7) não têm mais como tomar decisões sem antes ouvir Brasil, Rússia, Índia e China, que acabam de formalizar o grupo Bric, nome pelo qual se tornaram conhecidos informalmente. O grupo fez ontem sua primeira reunião, em Moscou. ¿O grupo se assumiu¿, disse Amorim.
No comunicado final da reunião, o bloco informa ter acertado a coordenação de ações com o objetivo de ganhar mais peso nas decisões internacionais. ¿Montar um sistema internacional mais democrático, fundado no império da lei e em uma diplomacia multilateral, é um imperativo do nosso tempo¿, diz a nota conjunta.
Os quatro países ¿confirmaram as aspirações do Bric de trabalhar entre si e com outras nações a fim de fortalecer a segurança e a estabilidade internacionais¿.
O compromisso envolveu também uma coordenação para tentar lidar com a disparada dos preços internacionais das commodities, especialmente do petróleo. Amorim optou por criticar os subsídios agrícolas dados pelos países ricos, que estariam causando distorções no comércio há anos. Para ele, isso acabou afetando a produção nos países mais pobres e agravando a crise hoje.
Já a China, importadora de alimentos e combustíveis, atacou os especuladores e pediu uma coordenação entre produtores e os consumidores de petróleo para que a volatilidade dos preços não acabe afetando o crescimento mundial.
Em entrevista ao Estado, por telefone, da Rússia, o chanceler ainda afirmou que o bloco endossou o etanol como parte de uma estratégia energética mundial. Mas, num sinal de que nem tudo é cooperação no Bric, Amorim teve, à margem da reunião, uma conversa com seu homólogo chinês e revelou a ¿decepção¿ do Brasil com os níveis de investimento da China no País.
Além disso, ele reclamou das barreiras chinesas aos produtos brasileiros e do déficit comercial crescente do Brasil com seu país.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
O que significa, na prática, uma reunião dos Brics?
A importância dessa reunião é o mero fato de estar ocorrendo. Depois de anos existindo apenas na cabeça de analistas, os Brics decidiram se assumir. A realidade é que será difícil que o G-7 possa se reunir e tomar decisões a partir de agora sem ouvir os Brics. O bloco será cada vez mais influente e a reunião de hoje (ontem) começou a delinear uma agenda, tanto política como econômica.
Qual é a posição do bloco em relação à situação econômica internacional?
Foi o crescimento das economias dos Brics que possibilitou que a desaceleração nos Estados Unidos não tivesse um impacto ainda maior. O que estamos propondo agora é que uma reunião de ministros da Fazenda dos Brics ocorra ainda neste ano para avaliar essa situação. A reunião ocorrerá no Brasil, em novembro, à margem do G-20, e terá a participação do ministro Guido Mantega (da Fazenda)e seus homólogos.
No que se refere ao peso político do grupo, quais são os objetivos?
Obviamente que uma reforma das instituições financeiras internacionais é algo relevante. O FMI (Fundo Monetário Internacional) já deu alguns passos nesse sentido, mas queremos que o processo avance mais. Um fator importante ainda foi que tanto Rússia como China, países que fazem parte do Conselho de Segurança da ONU como membros permanentes, reconheceram hoje que as aspirações do Brasil e da Índia por um lugar no organismo também são legítimos.
As realidades energéticas de cada país dos Brics é bem diferente. Como o etanol se encaixa nessa realidade?
O etanol como parte de uma estratégia energética foi plenamente aceita pelos Brics, o que é um endosso importante. Não há nesse bloco um questionamento como existe em alguns setores dos países ricos sobre o etanol, que sabemos ser equivocada.