Título: Uribe não deve fazer concessões, estimam analistas
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/05/2008, Internacional, p. A13

Após décadas, governo crê que pode vencer Farc pela força ou por meio de programa de incentivo à deserção

Apesar das esperanças de que sob o comando de Alfonso Cano, as Farc estejam mais propensas a dialogar, analistas assinalam que um outro fator pode se tornar um grande obstáculo à negociação de um acordo humanitário. ¿O tempo das Farc passou¿, disse ao Estado, por telefone, o pesquisador Pablo Casas, da Fundação Segurança e Democracia, em Bogotá. ¿Pela primeira vez em muitos anos o governo crê que pode desintegrar a guerrilha pela via militar e oferecendo condições para os guerrilheiros se entregarem. Por isso não vê por que deveria se sentar para conversar com a cúpula do grupo.¿

Eleito em 2002 com a promessa de acabar com as Farc, o presidente Álvaro Uribe conseguiu empurrar o grupo, que antes controlava imensas porções do território colombiano, para as fronteiras e os rincões isolados do país. Nos últimos meses, ele acumulou muitos e valiosos troféus na sua luta antiinsurgente. Em março, militares colombianos mataram, num ataque a um acampamento no Equador, o porta-voz das Farc, Raúl Reyes. Dias mais tarde, outro líder da guerrilha, Iván Ríos, foi assassinado por um de seus subordinados, que desertou depois para receber a recompensa do governo por informações sobre o paradeiro dos líderes das Farc.

¿O governo não está disposto a fazer concessões aos rebeldes¿, diz Carlos Medina, cientista político da Universidade Nacional da Colômbia. ¿Como nos dois lados há radicalismo e um grande ressentimento neste momento, não teremos um cenário propício para o diálogo sobre a libertação de reféns nos próximos meses, apesar do passado de articulador político de Cano.¿

O primeiro nó a ser desatado para a resolução do conflito é a questão dos reféns em poder da guerrilha. No ano passado, as Farc entregaram 6 dos 46 reféns que mantinham ao presidente venezuelano, Hugo Chávez. Os líderes guerrilheiros dizem que estão dispostos a negociar a troca dos outros seqüestrados por 500 rebeldes presos, mas pedem que os municípios de Pradera e Florida sejam desmilitarizados para isso - exigência que o governo se recusa a aceitar. Nos últimos meses, enquanto as Farc apostaram na inclusão de mediadores internacionais para ganhar espaço político com a negociação dos reféns, o governo preferiu apostar nos programas que permitem a deserção e reinserção de guerrilheiros e oferecem recompensas de milhares de dólares para aqueles que entregarem seqüestrados.

¿É com esse programa de desmobilização (que dá um ¿perdão oficial¿ aos rebeldes) que Uribe pretende lidar com a outra grave questão do conflito colombiano: como convencer os milhares de guerrilheiros que hoje fazem parte das Farc a entregar as armas¿, diz Casas.

A verdade é que a ¿mão-deferro¿ contra as Farc, lema de Uribe até agora, tem contado com amplo apoio da população. Com mais de 80% de aprovação, o presidente simplesmente não vê por que mudar de estratégia. ¿Podemos dizer que a liderança de Marulanda estava para as Farc como a de Fidel Castro para Cuba¿, diz Casas. ¿Agora, o governo vai esperar para ver se a guerrilha começa a se desintegrar pelas rivalidades internas, falta de autoridade clara e desânimo moral.¿