Título: O leilão de Jirau
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Fonte: O Estado de São Paulo, 21/05/2008, Notas e Informações, p. A3

O consórcio formado pelo Grupo Suez, controlador da Tractebel, pela Camargo Corrêa e pelas estatais Chesf e Eletrosul, subsidiárias da Eletrobrás, surpreendeu os analistas ao vencer o leilão de concessão para a construção da segunda usina hidrelétrica do Rio Madeira - Jirau, com potência de 3.300 MW -, oferecendo o preço de venda da energia de R$ 71,40 o MWh, inferior em 21,5% ao teto de R$ 91,00 o MWh fixado pelo edital. O baixo preço confirmou a percepção dos investidores de que precisam ocupar espaços no importante mercado brasileiro de energia, ainda que obtendo menor rentabilidade.

O leilão durou apenas 8 minutos. O outro concorrente, o consórcio liderado por Furnas e pelo Grupo Odebrecht, ofereceu R$ 85,02 o MWh. Esse grupo já havia ganho a concessão para construir a Hidrelétrica de Santo Antônio, com 3.150 MW de potência, também no Rio Madeira, a 100 quilômetros da Usina de Jirau.

Três justificativas foram apresentadas para o preço oferecido (que provocou baixa das cotações da Tractebel em bolsa) pelo consórcio vencedor. Primeiro, a venda antecipada de energia no mercado livre, onde o preço apurado é, hoje, bem superior ao do mercado cativo das distribuidoras. Como maior gerador privado do País, o Grupo Suez podia oferecer energia firme neste leilão, atraindo clientes do mercado livre temerosos da falta de energia a partir de 2012, quando Jirau começará a operar.

Segundo, o grupo vencedor acredita que disporá de energia para vender antes de janeiro de 2013, a data-limite para começar a gerar eletricidade. Toda essa energia poderá ser vendida no mercado livre, com preços mais elevados. A mesma conta já tinha sido feita pelo vencedor da Usina de Santo Antônio.

Terceiro, haverá uma modificação no projeto inicial, com o deslocamento de 9 km do local de instalação previsto e duas casas de força, ao invés de uma. ¿É um novo arranjo, com prazos e custos menores do que o mercado imagina¿, declarou o presidente do Grupo Suez no Brasil, Maurício Bähr. A economia com essa mudança é da ordem de R$ 1 bilhão, significativa num investimento com custo estimado de R$ 8,7 bilhões.

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, saudou o deságio da ordem de 40%, entre o preço máximo definido para Santo Antônio, de R$ 122,00, e o preço final de Jirau, de R$ 71,40. Disse que à medida que a energia encarece no exterior, no Brasil ela custará menos. Essa é uma afirmação precipitada, pois, em caso de desequilíbrio entre a oferta e a demanda, a energia será disputada a qualquer preço pelas empresas consumidoras. Além disso, a idéia de que os preços serão baixos não se aplica a todos os consumidores - é o caso dos do mercado livre, que pagaram preços reduzidos nos últimos anos, graças à oferta superior à demanda, e agora terão de pagar entre R$ 120,00 e R$ 130,00 o MWh, segundo as últimas estimativas.

A saída da ministra Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente sugere que o licenciamento prévio da Usina de Jirau terá trâmite rápido. Sem isto, a incerteza regulatória seria maior e os custos reais de Jirau, mais elevados. Esse fator contribuiu, certamente, para a oferta de um lance baixo para Jirau. Mas cabe registrar a opinião do especialista em energia Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (Cbie): ¿Não há tecnologia no mundo ou antecipação de entrega de energia que possa explicar preço tão baixo. Energia a este preço é um sinal equivocado que o governo federal dá ao setor no País, porque esta tarifa não remunera, principalmente porque nela há o valor que deverá ser pago para as linhas de transmissão do Madeira.¿ O mais provável, portanto, é que os vencedores contem com a diminuição, no longo prazo, dos custos da captação de recursos graças ao investment grade obtido pelo Brasil da Standard & Poor¿s.

Para o setor produtivo, o leilão significa promessa de mais energia. Mas os investimentos em geração estão atrasados. Está com o Ministério de Minas e Energia a responsabilidade, agora, de acelerar outros projetos, como o de Belo Monte.