Título: Na CPI, Aparecido não revela quem fez dossiê
Autor: Leal, Luciana Nunes; Lopes, Eugênia
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/05/2008, Nacional, p. A6

Ex-secretário poupa Dilma e Erenice; oposição desmonta a tese de que informações sobre gastos reservados constituem ¿banco de dados¿

O ex-secretário de Controle Interno da Casa Civil José Aparecido Nunes Pires resistiu ontem às pressões da oposição e, ao depor na CPI dos Cartões Corporativos, não revelou quem mandou fazer o dossiê com gastos reservados do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

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Apesar disso, a oposição ficou convencida de que conseguiu carimbar o dossiê como um produto da Casa Civil da Presidência da República. Os governistas, sem muita ênfase, insistiram na versão do banco de dados.

Aparecido e o assessor do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) André Fernandes, que também foi ouvido pela CPI, divergiram em vários pontos, mas, apesar das contradições, a base aliada deve derrubar hoje o requerimento para realizar uma acareação entre eles. O depoimento de Aparecido foi suspenso e continuará hoje.

Para sustentar a tese de que foi feito um dossiê na Casa Civil, André Fernandes, com a colaboração do deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), enumerou detalhes técnicos que, segundo ele, indicavam que foram selecionados em uma única planilha dados específicos de gastos do ex-presidente. ¿Vê-se claramente que pinçaram-se dados. Banco de dados pressupõe informações genéricas. Dossiê pressupõe informações pinçadas¿, disse o tucano. Para ele, o fato de haver folhas numeradas na planilha é um indicativo de que foram destacados apenas ¿gastos esdrúxulos¿. ¿O campo denominado número de folha é denunciante. É completamente inverossímil só ter dados exóticos. Um banco de dados teria compras normais de arroz, feijão¿, atestou André Fernandes.

MENTIRAS

Os pontos obscuros eram tantos que nem oposicionistas foram firmes na defesa de Fernandes nem os governistas saíram convencidos de que Aparecido falou a verdade. ¿Foi um lamentável festival de mentiras. Não sinto firmeza nem sinceridade em nenhuma das partes¿, resumiu o líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN). ¿Olha que eu sou governista, mas custa-me acreditar que você tenha enviado sem querer. Talvez seu dedo tivesse em um dia de mau gosto ao enviar essa planilha¿, disse o deputado Sílvio Costa (PMN-PE), referindo-se a Aparecido.

O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) disse que ¿José Aparecido pareceu um homem alienado do mundo e abusou do direito de mentir¿. E acrescentou: ¿PT e PSDB se parecem muito e quando estão encrencados, fica um querendo prestar serviço ao outro¿.

Os depoimentos praticamente repetiram o que os dois suspeitos falaram à Polícia Federal na semana passada. André Fernandes disse ter ouvido de Aparecido que o dossiê foi feito a pedido de Erenice Guerra, secretária-executiva da Casa Civil, braço-direito da ministra Dilma Rousseff. Aparecido isentou de responsabilidade Erenice e Dilma e afirmou jamais ter conversado com nenhuma das duas sobre o que chama de ¿banco de dados¿. Disse ainda que enviou a planilha com gastos de FHC ¿por engano e descuido¿ e que queria apenas mostrar um texto sobre administração pública para Fernandes.

Durante os depoimentos, os governistas insistiram na tese de que Fernandes havia convencido o amigo Aparecido a enviar o dossiê. ¿Para mim o que houve foi um grande tráfico de amizade¿, disse o senador Wellington Salgado (PMDB-MG). Os dois disseram que, depois de terem rompido no primeiro governo Lula, voltaram a se falar em 2006, mas sem proximidade. No entanto, Fernandes participou da comemoração do aniversário de Aparecido, no dia 26 de março deste ano.

SESSÃO SECRETA

Por 12 votos contra e sete a favor, os governistas derrubaram o pedido da oposição para que Fernandes falasse em sessão secreta. O assessor alegou ter ¿cinco pontos¿ que gostaria de falar reservadamente aos integrantes da CPI para ¿proteger a honra e a imagem das pessoas¿. ¿Vai além da confecção do dossiê¿, afirmou Fernandes. Ele se negou a fazer as revelações na sessão aberta: argumentou que eram fatos colaterais, que nada tinham a ver com o dossiê.

A sessão, que começou com o deputado Carlos Willian (PTC-MG) sugerindo que André Fernandes jurasse sobre a Bíblia que só diria a verdade, teve momentos de bate-boca, de piadas, de provocações. Os integrantes da CPI caíram na gargalhada quando Aparecido disse não se lembrar o número de participantes de um almoço com apenas quatro pessoas.

AS CONTRADIÇÕES

ALMOÇO NO CLUBE NAVAL

André diz que, quando recebeu o e-mail, marcou almoço com Aparecido para discutir o assunto. Ele que ligou para marcar o encontro

Aparecido afirma que André não citou o recebimento de nenhuma planilha e que conversaram sobre os rumores de vazamento dos dados.

Segundo Aparecido, o convite para o almoço foi feito por um amigo em comum, Nélio Lacerda, que disse que André estaria presente

PLANILHA ENVIADA

André diz que recebeu o e-mail com a planilha como ¿intimidação à oposição¿

Aparecido afirma que, ¿se anexou¿ o documento, foi ¿por engano ou descuido¿

ERENICE GUERRA

André garante ter ouvido de Aparecido que a secretária-executiva da Casa Civil determinou elaboração do dossiê com gastos de FHC. Ele diz também que Aparecido se referiu a uma reunião convocada por Erenice em que foi pedido a cada secretário da pasta que cedesse dois funcionários para trabalhar na coleta de dados

Aparecido diz que jamais tratou com Erenice ou com a ministra Dilma Rousseff sobre banco de dados e que a reunião teve a participação apenas do secretário de Administração da Casa Civil, Norberto Temóteo, que requisitou os dois funcionários

PEDIDO DE EMPREGO

André diz que jamais pediu emprego no governo Lula

Aparecido afirma que, em janeiro de 2003, recebeu por e-mail o currículo de André, que ¿cogitou¿ ser secretário-executivo-adjunto do Ministério do Planejamento

BRIGA

André afirma que brigou com Aparecido em 2004, durante a CPI do Banestado, porque o então funcionário da Casa Civil queria que o assessor deixasse de trabalhar com os parlamentares da oposição

Aparecido diz que a briga ocorreu em 2003, quando o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) encaminhou à Casa Civil pedido de informações sobre funcionários do TCU cedidos ao ministério, viagens e gastos desses servidores. Segundo Dias, o pedido foi feito em 2005 e não se referia só a funcionários do TCU