Título: Locaute trava economia argentina
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/05/2008, Economia, p. B7
Conflito entre produtores rurais e governo já provoca queda no consumo e redução na estimativa de alta do PIB
BUENOS AIRES
O locaute realizado pelos agropecuaristas argentinos contra o governo da presidente Cristina Kirchner, que se arrasta com interrupções desde o início de março, está causando uma série de efeitos colaterais na economia argentina. O conflito, o maior enfrentado pela presidente desde sua posse em dezembro passado, provocou uma nova disparada da inflação, desconfiança generalizada dos investidores no país, queda de consumo, alertas sobre o esfriamento da economia e corridas bancárias localizadas. Economistas criticam o impasse entre ruralistas e governo (ao qual acusam de inflexibilidade e de falta de tato político) e alertam para um eventual esfriamento da economia que não era esperado para tão cedo.
Segundo os analistas, no ano que vem, em vez das expectativas de crescimento de 5% a 7% do PIB, a Argentina deve apresentar um aumento de apenas 4%. Na última meia década, o crescimento da economia argentina foi de mais de 8% em média por ano.
Nesse clima de desconfiança crescente, os correntistas argentinos, calejados com cinco grandes crises nos últimos 33 anos, estão novamente optando pelo sistema bancário do Uruguai como refúgio para seu dinheiro. Dados oficiais uruguaios indicam que, no primeiro trimestre deste ano, os depósitos bancários aumentaram em 8%. O aumento, de US$ 820 milhões, é atribuído aos clientes argentinos, que tradicionalmente são o principal setor estrangeiro com depósitos nos bancos uruguaios, segundo uma investigação realizada pelo jornal La Nación.
Antes da crise financeira argentina de 2001-2002, que também atingiu os bancos uruguaios, a presença argentina nas contas em bancos do outro lado do Rio da Prata era de 46% do total. Com a crise, a proporção de argentinos com depósitos em bancos uruguaios caiu para 21%. Nos últimos anos, manteve-se estável. Mas, nas última semanas, com a instabilidade que começa a pairar na Argentina, a presença de correntistas do país no Uruguai voltou a crescer.
Outro sinal das complicações dentro da Argentina é a queda do consumo, registrada principalmente na venda de roupas e eletrodomésticos. A proporção de automóveis zero quilômetro, segundo dados de concessionárias, teria registrado uma queda de 5% a 10% desde o início do locaute agropecuário. A crise na área rural também causou uma abrupta queda na venda de maquinarias agrícolas. Nos primeiros quatro meses deste ano, essas vendas despencaram 40% em comparação com o mesmo período de 2007.
Segundo dados do Banco Central, enquanto em março de 2007 o valor dos créditos ao consumo que estavam em situação irregular era de US$ 220 milhões, no mesmo mês deste ano esse volume chegou a US$ 453 milhões.
O pivô da crise entre o governo e os produtores é o aumento dos impostos sobre as exportações dos produtos agropecuários e o sistema de tributos ¿móveis¿ (que oscilam de acordo com o preço internacional do produto), medidas que os agricultores rechaçam. Os ruralistas também exigem a suspensão das restrições para exportações de carne e trigo. Mas o governo afirma que não negociará enquanto os produtores permanecerem em estado de locaute.
Enquanto o conflito continua, o governo arrecada menos. No total, por mês, a União está perdendo US$ 1 bilhão em tributos por causa da redução drástica das exportações. A paralisação da comercialização de cereais e oleaginosas está deixando 160 mil caminhões parados. Além disso, a inflação cresce sem parar. Para este ano, enquanto o governo calcula que a inflação não superará os 10% e os economistas independentes consideram que oscilará entre 25% e 30%, a percepção da população é de que será ainda mais alta - uma média de 36,5%, segundo uma pesquisa da Universidade Di Tella.
APELOS
O setor industrial, o sistema bancário e até o clero estão preocupados com os efeitos da escalada do conflito. Neste fim de semana, os empresários fizeram um apelo aos produtores, para que suspendam o locaute e dialoguem com o governo. A Associação de Bancos Privados de Capital Argentino (Adeba), a Bolsa de Comércio de Buenos Aires, a Câmara Argentina de Comércio, a Câmara Argentina de Construção e a União Industrial Argentina (UIA) emitiram um comunicado conjunto no qual ressaltam que ¿o país não pode esperar mais¿ pelo fim do confronto. Mas o apelo dos industriais não surtiu nenhum efeito entre os produtores rurais. Os produtores, na verdade, considerem os industriais uma classe privilegiada pela política econômica da presidente Cristina e do governo de seu antecessor e marido, Néstor Kirchner.