Título: Tensão com Chávez aproximou EUA e Lula
Autor: Miranda, Renata; Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/05/2008, Internacional, p. A15

Documentos mostram que, após eleito, petista quis tranqüilizar Casa Branca

A tensão política com a Venezuela serviu de combustível para que os EUA - tradicionalmente refratários a governos esquerdistas - se aproximassem do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, já nos dias em que se seguiram à eleição do candidato do Partido dos Trabalhadores, em 2002. Segundo documentos do Departamento de Estado dos EUA divulgados ontem pelo jornal Valor Econômico, Lula buscou tranqüilizar a administração de George W. Bush em relação ao temor de que ele se tornasse automaticamente um aliado de Hugo Chávez na região.

Em outubro daquele ano, três dias após a vitória nas urnas, Lula recebeu a então embaixadora dos EUA no Brasil, Donna Hrinak, para uma conversa, em São Paulo. ¿Ela sublinhou particularmente que seria importante evitar surpresas desagradáveis¿, diz um dos documentos - um relatório da embaixada enviado a Washington -, numa aparente referência a Chávez. Lula respondeu que seu governo não seria ¿ideológico¿ e assegurou que não haveria ¿nenhuma surpresa¿.

Representantes de Washington voltariam a referir-se a Chávez em 2005. Entre os documentos há um registro de uma reunião entre a secretária de Estado, Condoleezza Rice, com o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. O texto mostra a disposição do governo brasileiro de aproximar-se de Washington e servir como mediador na disputa retórica entre os EUA e Chávez. Em resposta a um comentário de Condoleezza, segundo o qual o Brasil deveria enviar uma ¿mensagem clara¿ ao venezuelano, Dirceu afirma que Lula já havia aconselhado Chávez ¿sobre a necessidade de ser mais cuidadoso em sua retórica¿.

Segundo o relatório, Dirceu garantiu no mesmo encontro que o Brasil tinha a situação na Bolívia ¿sob controle¿, no momento em que o líder cocaleiro Evo Morales preparava-se para concorrer à presidência.

Analistas, no entanto, consideram limitadas as opções de Lula para que consiga atender à demanda de Washington para que contenha Chávez. ¿A capacidade da diplomacia brasileira de conter Chávez é praticamente nula, pois ele só mantém a boa relação com o Brasil enquanto é interessante para ele¿, afirmo ao Estado o cientista político Christian Lohbauer da Universidade de São Paulo (USP). ¿No momento em que o Brasil contrariar os interesses da Venezuela, Chávez virará as costas para o País, como já fez algumas vezes¿, disse.

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Para o cientista político Reginaldo Nasser, PUC de São Paulo, a oferta tácita de mediação de Lula deve ser atribuída à tentativa do brasileiro de ganhar a confiança dos americanos. ¿Quando foi eleito em 2002, Lula procurava o apoio dos EUA para convencer investidores de que conduziria a economia de maneira responsável¿, lembrou. ¿Depois de assumir, reforçou a aliança com Washington quando enviou soldados brasileiros para o Haiti em 2004. O Brasil passou a ser visto como uma administração centrada em meio a governos considerados `irresponsáveis¿, como o da Bolívia, Equador, Venezuela e até o da Argentina¿, afirmou Nasser.

Ele crê, no entanto, que a ação do Brasil sobre Chávez limita-se a deixar claro ao venezuelano que algumas de suas atitudes podem levar ao seu isolamento na região. ¿Acredito que o papel do País é mais de dissuasão do que de pressão, porque não interessa ao Brasil perder os laços - e o comércio - com a Venezuela.¿ De acordo com a Câmara Venezuelana-Brasileira de Comércio e Indústria, o comércio entre os dois países movimenta US$ 5 bilhões - e a balança comercial é amplamente favorável ao Brasil.

Para o cientista político argentino Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos de União para a Nova Maioria, em Buenos Aires, o Brasil conquistou a confiança dos EUA. ¿A iniciativa brasileira de criar um Conselho de Segurança Sul-Americano poderia ser visto com algum receio por Washington¿, diz Fraga. ¿Mas, agora, os EUA aceitam e até encorajam a consolidação da liderança do Brasil na América do Sul¿, disse. Para o analista, os EUA vêem na iniciativa uma alternativa concreta para conter a influência de Chávez na região.

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, desmentiu a disposição de Lula de conter Chávez. Segundo Amorim, ¿o papel do País¿ na solução de problemas da região segue outra linha: a da cooperação. ¿Nas inúmeras conversas com os presidentes Chávez e Evo, nunca ouvi o presidente Lula falar em `conter¿, `reprimir¿, `dificultar¿ ou `obstar¿. A palavra repetida foi sempre `cooperar¿¿, declarou o chanceler.