Título: Farc tentam comprar mísseis no mercado negro
Autor: Godoy, Roberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/06/2008, Internacional, p. A21

Traficante de armas preso na Tailândia negociava com a guerrilha colombiana desde setembro de 2006

O comando das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) está tentando comprar 100 mísseis antiaéreos Igla, de porte pessoal, no mercado clandestino de equipamentos militares. É uma arma simples e eficiente, disparada por um só combatente. O Igla pode destruir alvos aéreos a 5.200 metros de distância e altitudes entre 10 metros e 3,5 mil metros. O conjunto de lançador e míssil pesa 16 quilos. Custa cerca de US$ 60 mil.

O fornecimento estava na agenda de negociações entre Raúl Reyes - o número 2 da guerrilha morto no ataque colombiano contra um acampamento das Farc no Equador, em 1º de março - e Viktor Bout, o mais notório dos operadores do mercado negro de sistemas militares. Bout, tajique com nacionalidade russa, foi preso em Bangcoc, na Tailândia, em 6 de março quando negociava o lote de mísseis Igla com traficantes australianos e do Leste Europeu. A informação chegou ao conhecimento da rede de inteligência militar e da Polícia Federal brasileiras por meio de um detalhado relatório confidencial assinado pelo diretor da agência de segurança interna da Tailândia, Petcharat Sengchai.

O documento, a que o Estado teve acesso, destaca os contatos mantidos entre Bout e outro importante traficante, o libanês Monzer al-Kassar, que vive na Espanha. Preso em Madri seis meses antes, ele mantinha contatos com Bout por meio da filha única, Mahiba, personagem freqüente do eixo Rio-Buenos Aires. Em fevereiro, os dois se encontraram em um hotel da região de São Conrado. O tajique, que viaja em um avião de carga Ilyushin convertido em escritório, deixou a aeronave na Argentina.

Um oficial brasileiro da área de inteligência acredita que os dois tenham usado identidades falsas e tratado de detalhes para a entrega de explosivos, armas, munições e dos mísseis leves. Bout declarou às autoridades tailandesas que vinha negociando a entrega de suprimentos para as Farc desde setembro de 2006. Seu contato principal era Reyes. Eventualmente, entrava em cena o novo líder da guerrilha, o antropólogo Alfonso Cano, que assumiu o posto depois da morte de Manuel Marulanda, o ¿Tirofijo¿.

Em Bogotá, o documento do inspetor Sengchai foi considerado ¿a comprovação de nossas piores suspeitas¿, segundo declarou, por meio de um porta-voz, o comandante das Forças Armadas colombianas, general Freddy Padilla. Recorrendo ao conteúdo dos três computadores apreendidos no acampamento destruído no bombardeio de março, Padilla lembra das citações ao ¿amigo da Bielo-Rússia¿ que sugere ¿as vias do mercado negro¿ como melhor opção para a entrega da ¿encomenda¿.

O ¿amigo¿ seria Victory Sheyman, secretário do Conselho de Segurança e Defesa de Minsk, e a ¿encomenda¿ o conjunto de mísseis Igla, um negócio de alto valor, entre US$ 600 mil e US$ 800 mil. Com essa arma, também adotada pelo Exército do Brasil, os guerrilheiros poderiam resistir à ação de aeronaves de vigilância e a ataques com helicópteros e aviões leves.

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