Título: Não há consenso sobre crise na Medicina da Ufba
Autor: Décimo, Tiago
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/05/2008, Vida&, p. A26
Diretor avalia que há deficiência de infra-estrutura, mas reitor discorda
Avessa a aparições públicas, a professora Helenemarie Schaer-Barbosa assumiu, na última semana, a coordenação do colegiado da mais antiga instituição de ensino superior do Brasil, a Faculdade de Medicina da Bahia (FMB) - que completou 200 anos em 18 de fevereiro -, da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
O desafio é grande. Helenemarie assume a gestão acadêmica do curso - criado pelo rei de Portugal d. João VI por sugestão de seu cirurgião-mor, José Correia Picanço - no meio de uma crise institucional detonada pelo péssimo resultado no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).
Três em cada quatro estudantes da FMB são brancos, filhos de famílias de classe média-alta, que estudaram a vida toda em escola particular e entraram na universidade, em média, aos 18 anos. Muitos vão à faculdade com o próprio carro. O perfil contrasta com o de Salvador, que tem 81% de seus 2,2 milhões de habitantes declarados como afrodescendentes e a maior taxa de desemprego do País - 20% da população economicamente ativa está sem ocupação.
SABOTAGEM
Para o reitor da Ufba, Naomar de Almeida Filho, as dificuldades da FMB seriam fruto de ¿um problema de gestão¿. Quanto ao fiasco no Enade, ele sentencia: ¿Já está claro que houve boicote dos alunos; na verdade, pior que boicote, houve sabotagem. Causou uma mácula de difícil remoção.¿
Para o diretor da FMB, José Tavares Neto, a principal causa dos problemas da instituição é a deficiência de infra-estrutura. O complexo inclui dois prédios, um histórico, concluído em 1815, no Pelourinho, e o Pavilhão de Aulas, no bairro do Canela. Também conta com a Maternidade Climério de Oliveira, no bairro de Nazaré, e o Hospital Universitário Professor Edgard Santos, no Canela.
Segundo o diretor, é no hospital, com 260 leitos, que se concentra a maior parte das carências. ¿O número é insuficiente para absorver os 160 estudantes que entram anualmente na FMB¿, afirma. ¿Quando comparamos com a USP, que tem quase 2 mil leitos para 180 estudantes, vemos o quanto estamos longe do ideal.¿
Outro desafio é o quadro insuficiente de professores, com remuneração baixa. O hepatologista Raimundo Paraná, livre-docente da instituição, por exemplo, declarou publicamente, na última semana, que recebe R$ 1.400 mensais por 20 horas-aula por semana.
Por situação pior passam os professores substitutos. Hoje, segundo a reitoria, dos 308 professores, 101 são substitutos. ¿Eles se submetem a 20 horas por semana de trabalho para receber uma remuneração média de R$ 380 por mês¿, diz o diretor. ¿Claro que, com esse valor, só conseguimos atrair profissionais sem mestrado ou doutorado - às vezes até sem residência. Não há como fornecer um ensino de qualidade nessas condições.¿
Para comprovar sua tese, Tavares Neto cita os cursos de pós-graduação da FMB, todos bem avaliados pelo MEC. ¿A diferença é que, para fazer pesquisas, os professores recebem incentivos, como bolsa de estudo, então eles se mantêm motivados¿, analisa. ¿Temos 10% dos professores da Ufba, mas nos últimos dez anos publicamos 25% dos trabalhos científicos de toda a universidade em revistas. E qual o incentivo para quem está lá ensinando os estudantes da graduação? Nenhum.¿
Para os alunos, a falta de incentivo se reflete no pouco compromisso dos professores com o ensino. ¿Muitos professores não cumprem a carga horária¿, diz a aluna do 3º ano Luamorena Leoni, de 23 anos. ¿Eles ficam acumulando trabalhos fora e fazendo da faculdade um `bico¿.¿
TUDO EM ORDEM
Almeida Filho contesta a maior parte dos problemas apontados. ¿Não é verdade que faltem professores ou leitos na Faculdade de Medicina¿, afirma. ¿Temos uma média de 3,5 alunos por professor, melhor que boa parte das melhores universidades do mundo.¿ Sobre os leitos, o reitor soma, aos do hospital universitário, os dos postos de saúde que a faculdade pode usar com objetivos acadêmicos, por meio de convênio com a prefeitura. Somando-se aos do Hospital Universitário, chegam a 609. ¿Os postos não têm estrutura para abrigar os alunos e desestimulam o acompanhamento por parte dos professores¿, rebate Tavares Neto.