Título: Ministra colecionou desafetos
Autor: Domingos, João
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/05/2008, Nacional, p. A5

Marina teve embates recentes com os colegas Dilma e Stephanes e viu relacionamento com Lula se desgastar

Nome de sucesso do lado de fora do governo, a ex-ministra Marina Silva colecionou desafetos na Esplanada dos Ministérios e viu seu relacionamento com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se desgastar muito ao longo dos últimos anos.

Em janeiro, quando a então ministra divulgou a informação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de que o desmatamento na Amazônia havia crescido nos meses de novembro e dezembro, a reação de Lula foi irada.

Dias depois, ao final de um almoço no Itamaraty com o presidente do Timor Leste, o Nobel da Paz Ramos Horta, o presidente se recusou, diante de perguntas insistentes dos jornalistas, a criticar a ministra.

Lula disse que os dados do Inpe eram como um ¿tumorzinho¿ anunciado como câncer antes da biópsia. Ou uma ¿coceira¿. Mas fez questão de acrescentar que ¿a companheira Marina¿ não tinha culpa de nada.

Nos bastidores, o presidente ficou irritado com Marina porque, em uma reunião com vários ministros, diante da insistência dela em mostrar-lhe os dados do Inpe a respeito do desmatamento, pedira-lhe calma, até que os números fossem mais bem estudados.

Além de Lula, ora o confronto foi com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff - por causa das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como as duas usinas do Rio Madeira -, ora foi travado com a Agricultura - primeiro com o ex-ministro Roberto Rodrigues, que defendia a liberação de transgênicos, depois com Reinhold Stephanes e o agronegócio.

Marina foi derrotada na liberação do plantio e comércio da soja transgênica logo no início do governo. Chorou, mas decidiu não sair do ministério na época. Ponderou que sua presença era importante para outras causas do meio ambiente.

Na liberação do plantio e comercialização do milho transgênico, em fevereiro passado, ela, na reunião dos ministros colegiados, disse não. Só isso. Na mesma mesa, Dilma Rousseff disse sim, tendo vencido.

Durante a batalha do governo pela licença ambiental das usinas de Santo Antonio e Jirau, no Rio Madeira, Marina também bateu de frente com Dilma. Na ocasião, Lula mais uma vez se irritou com sua então ministra do Meio Ambiente. ¿Jogaram o bagre no colo do presidente. O que eu tenho com isso? Tem que ter uma solução¿, reclamou Lula da alegação dos ambientalistas de que as obras estavam em ponto morto por causa da população de bagre dos rios da região.

Na cerimônia do lançamento do Plano Amazônia Sustentável (PAS), na semana passada, Marina lembrou que muitas vezes fora chamada de ¿ministra do bagre¿, mas que a alcunha servira para defender a sustentabilidade das obras na região amazônica.

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