Título: O elevador da mosca azul
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/06/2008, Economia, p. B10
Qualquer interlocutor que visite presidentes no Planalto tem de passar por ele
O elevador do Palácio do Planalto usado pela família Constantino, dona da Gol, e pelo advogado Roberto Teixeira, o compadre do presidente Lula que teria faturado US$ 5 milhões na venda da Varig, tem sido cenário de boas histórias de poder, prestígio e polêmica. Já foi usado por líderes mundiais, reis, ditadores e prêmios Nobel, rainhas da festa da uva, do vinho e da polenta, mensaleiros e aloprados.
Localizado na extrema direita da lateral leste do prédio, o ¿elevador da mosca azul¿, como é chamado por funcionários da Presidência, liga o quarto andar do palácio à garagem, no subterrâneo. Além de servir a chefes de Estado em visita ao poder, a saída pelo andar térreo do elevador é a preferida de deputados do baixo clero obcecados em demonstrar proximidade com o presidente da República e parlamentares conhecidos, mas em momento de baixa. É no térreo que atua um batalhão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas.
O título ¿mosca azul¿, explicam funcionários, se deve a atitudes como a de Roberto Teixeira: na noite do dia 28 de março de 2007, o advogado optou por sair pelo térreo, mesmo sabendo que ia ao encontro da imprensa. E não se incomodou com as perguntas inevitáveis sobre a relação pessoal que ele mantém com o presidente. Quem quer manter em segredo o encontro com Lula entra e sai pelo subterrâneo. O elevador tem um dispositivo que permite ao passageiro evitar o andar térreo. Só para quem quer ser visto.
Esse elevador da lateral leste é também usado por quem é nomeado ministro ou por ministro disposto a negar problemas políticos. Em abril de 2005, enfrentando denúncias sobre enriquecimento ilícito, o então ministro da Previdência Romero Jucá apertou a tecla do térreo. Era para demonstrar tranqüilidade diante dos holofotes, mas ficou visivelmente irritado com as perguntas indigestas dos jornalistas.
Ministros de Lula chamam o elevador de ¿cela de tortura¿. Quando são convocados pelo presidente, e têm de falar com a imprensa, os ministros respondem algumas perguntas e, ao retornar ao elevador, ficam momentos ¿intermináveis¿ na ¿cela¿, enquanto jornalistas e fotógrafos seguram a porta e fazem novas perguntas. Tarso Genro (Justiça), Paulo Bernardo (Planejamento) e José Múcio (Relações Institucionais) sabem bem como isso funciona.
Condoleezza Rice, Angela Merkel, Hugo Chávez, Cristina Kirchner, Jacques Chirac e Fidel Castro usaram o elevador da lateral leste. Apesar do brilho desses ¿passageiros¿, nada suplanta o segredo e os mistérios que cercam o elevador privativo do Planalto.
Dos oito elevadores em funcionamento no palácio, o da lateral leste é, porém, o mais fotografado nos dias tensos de Brasília. Por esse elevador Fernando Collor subiu em março de 2007 para um encontro com Lula, 14 anos depois do impeachment. De dentro da ¿cela¿ ouviu um repórter perguntar como era voltar ao local em que saiu sendo xingado de ¿ladrão¿. Foi pelo privativo que Collor deixou o palácio a 2 de outubro de 1992, mas a fama de ¿elevador maldito¿ ficou mesmo com o da lateral leste, o que foi usado por Roberto Teixeira. Às vezes são confundidos por causa da proximidade.
Outra história envolve Collor e o elevador da lateral leste. À época, o elevador tinha um ascensorista, Pedro de Alcântara Rocha, no Planalto desde 1980. Ao entrar no elevador, com capacidade para dez pessoas ou 700 quilos, fabricado pela Atlas Schindler, num tumulto de jornalistas e assessores, Collor fez uma piada. Só Rocha riu muito. ¿Você foi o único a entender a minha piada¿, disse, sarcasticamente, o então presidente.
O ¿elevador da mosca azul¿ já viveu dias de ostracismo. Em abril de 2001, o presidente Fernando Henrique Cardoso cortou 25% da energia do palácio para aderir à campanha antiapagão elétrico. Metade dos elevadores foi desativada, entre eles o da lateral leste. Era o preferido dos ¿mensaleiros¿ e ¿aloprados¿, que gostavam de mostrar intimidade no Planalto.
Links Patrocinados