Título: Ricos impõem taxas mais pesadas sobre bens agrícolas
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/06/2008, Economia, p. B8

Os países ricos aplicam tarifas de importação ao setor agrícola nove vezes superiores às da indústria. A constatação é do Banco Mundial (Bird), que alerta que os países em desenvolvimento foram os que mais abriram a economia na última década e aponta que as barreiras mais protecionistas ainda estão na Europa e nos Estados Unidos, dificultando as exportações das economias pobres.

Em dez anos, a tarifa média sobre importação no mundo caiu de 14,1% para 9,4% (33%). Mas, segundo a entidade, foram os países em desenvolvimento que mais promoveram medidas de abertura comercial e já convergem para taxas cobradas pelos países ricos. No geral, os países emergentes cortaram em 46% as tarifas de importação, ante redução marginal nos países ricos.

O resultado é que, hoje, os países ricos tem tarifa média de importação de 6%, ante 11% nos emergentes. Na Organização Mundial do Comércio (OMC), americanos e europeus insistem que, sem maior abertura do setor industrial dos emergentes, não haverá acordo.

Hoje, a África é quem tem as maiores tarifas, com 26%. Mas reduziu em 50% a média em uma década. A menor taxa está na Europa Central, com 7%. A América Latina não está distante, com 9%. Em menos de dez anos, o Egito reduziu as tarifas de importação de 47% para 17%; a India, de 32% para 15%; Maurício, de 18% para 3,5%; e a China, de 14% para 10%.

Se, na média, os países ricos tem as tarifas mais baixas, o Bird alerta que isso não é suficiente para mostrar quem são os mais protecionistas. Isso porque os ricos também aplicam tarifas de mais de 350%, principalmente sobre os produtos de interesse dos países emergentes. A título de comparação, a entidade mostra que a maior tarifa cobrada na América Latina é de 108,1%.

Para o Bird, não há dúvida de que são as economias emergentes que mais sofrem para exportar produtos de alto valor agregado diante desses picos tarifários. A escalada tarifária é mais grave nos países da OCDE, com taxas bem acima dos países em desenvolvimento.

Na agricultura, essa tendência é amplificada. O Banco Mundial admite que todos os países tem barreiras ao comércio de alimentos. Mas a média mais alta está entre os ricos. Nos países mais pobres, a tarifa de bens agrícolas é 1,4 vez a taxa de bens industriais. Nos ricos, a taxa da agricultura é nove vezes maior que nos demais setores.

Para o Bird, os problemas não acabam com as tarifas. Segundo a pesquisa, são os países ricos quem têm as maiores barreiras não-tarifárias, que protegem de forma mais agressiva alguns setores. O resultado é que, apesar de terem sido os que mais se abriram, são os países pobres que mais sofrem para exportar. No geral, esses países precisam pagar 32% mais em tarifas que os países ricos.

Na América Latina, os países com melhor acesso ao mercado externo são México - graças a acordos de livre comércio - e a Venezuela, diante das exportações de petróleo. Já o Brasil sofre particularmente diante da composição de sua pauta.

No mesmo período em que os países em desenvolvimento se abriram, seu comércio sofreu a maior desaceleração, enquanto as exportações dos países ricos aumentaram. No início da década, as vendas dos países ricos aumentaram 6%, ante 8% nos emergentes. Em 2007, a taxa se inverteu. Na América Latina, o aumento real das exportações foi de 6,3% nesse ano.