Título: FMI elogia ação do BC no controle da inflação
Autor: Campos Mello, Patrícia
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/07/2008, Economia, p. B3

Em relatório, Fundo diz que prioridade dos governos deve ser combater as pressões de alta de preços

O Fundo Monetário Internacional (FMI) elogiou a atuação enérgica do Banco Central brasileiro para manter a inflação sob controle. ¿O Brasil está indo muito bem, tem um Banco Central bastante ativo, que vem apertando a política monetária neste ano e, como resultado, as expectativas de inflação continuam bem ancoradas¿, disse Charles Collyns, vice-diretor do Departamento de Pesquisas do Fundo. ¿A chave do crescimento é manter a inflação sob controle; o pior que pode acontecer é a inflação ficar fora de controle, o que obrigaria o governo a elevar muito os juros e abortar o crescimento, causando uma aterrissagem forçada da economia.¿

O FMI apresentou ontem as revisões do relatório Perspectiva Econômica Global e ressaltou que a inflação é um dos maiores problemas enfrentados pela economia mundial hoje. ¿A prioridade dos governos deve ser o combate às pressões inflacionárias, com política monetária mais apertada e austeridade fiscal, enquanto não perdem de vista os riscos para o crescimento¿, disse o economista-chefe do FMI, Simon Johnson. ¿Os bancos centrais devem levar em consideração uma elevação de taxas de juros de forma preventiva para evitar que a inflação saia do controle.¿

Nas nações emergentes, o Fundo revisou a previsão de inflação em mais de 1,5 ponto porcentual em 2008 e 2009, para 9,1% e 7,4% (ante 7,3% e 5,6% previstos em abril.)

O Fundo revisou para cima as estimativas para crescimento mundial, de 3,7% para 4,1% em 2008 e 3,8% para 3,9% em 2009. Mas não se trata de maior otimismo. Segundo Simon Johnson, os números foram revisados para cima porque os efeitos da crise de crédito americana sobre a economia global estão levando mais tempo para serem sentidos. ¿Trata-se de uma questão de timing¿, disse.

O Fundo continua projetando uma economia mundial em franca desaceleração - 5,1% em 2006, 5% em 2007, 4,1% em 2008 e 3,9% em 2009. As economias emergentes, que tiveram crescimento de 7,9% em 2006 e 8% em 2007, devem crescer 6,9% em 2008 (previsão anterior era 6,7%) e 6,7% em 2009 (anterior era de 6,6%). O Brasil, que teve crescimento de 3,8% em 2006 e 5,4% em 2007, deve avançar 4,9% este ano (previsão anterior era de 4,8%) e 4% no ano que vem (diante de previsão anterior de 3,7%).

Um dos motivos que levaram os economistas a revisar para cima o crescimento da América Latina , de 4,4% para 4,5% neste ano, foi o crescimento do Brasil, acima das expectativas, disse Collyns. Ele afirmou, no entanto, que a América Latina ¿não descolou¿ dos Estados Unidos. ¿Projetamos uma desaceleração constante em 2008 e 2009 da região, a reboque do menor crescimento de exportações e da política monetária mais apertada¿, disse Collyns. ¿Alguns bancos centrais foram proativos no aperto monetário e vão ter de continuar elevando juros.¿

O FMI estima que os EUA vão crescer 1,3% em 2008 (a previsão anterior era de apenas 0,5%) e 0,8% em 2009, em vez de 0,6%. ¿A economia global está em uma situação muito difícil, porque a demanda de muitos países ricos está desacelerando de forma significativa, e a inflação está subindo em todos os países, particularmente nos emergentes¿, disse o economista.

Segundo Johnson, ainda existe uma possibilidade de o mundo entrar em recessão. No relatório de abril, o FMI apontava uma probabilidade de 25% de o mundo crescer menos de 3%, o que tecnicamente configuraria uma recessão.

O Fundo prevê que a desaceleração iniciada no meio do ano passado deve continuar no segundo semestre deste ano, e a economia vai se recuperar gradualmente ao longo de 2009. Nas economias desenvolvidas, a inflação anual chegou a 3,5% em maio de 2008 .

Nesses países mais ricos, as pressões inflacionárias serão contrabalançadas por desaceleração da demanda. Não há consenso sobre a necessidade de aperto monetário nessas economias, porque a desaceleração de demanda leva as expectativas de inflação e custos de mão-de-obra a permanecerem sob controle. ¿Mas o risco de efeitos de segunda rodada por causa da alta nos preços das commodities complica a reação à desaceleração econômica, particularmente em economias avançadas.¿