Título: Excesso de demanda eleva preço do frete
Autor: Pereira, Renée
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/07/2008, Economia, p. B3
Empresas aproveitam falta de transporte para negociar reajustes com clientes, o que pode elevar os índices de inflação
A estratégia das empresas transportadoras de escolher os clientes mais rentáveis para atender não é o único efeito do descompasso entre oferta e demanda. Significa também pressão por aumento de preços dos fretes e riscos para os índices de inflação no País, que já andam bastante elevados, avalia o professor do Centro de Logística da Coppead/UFRJ, Paulo Fleury, responsável pelo estudo "Transporte Rodoviário de Carga: Estudo da Oferta e Demanda".
Segundo a pesquisa, a quantidade de transportadoras que atendem a demanda sem folga subiu de 37%, em 2005, para 52%, este ano. Já entre aquelas em que a demanda supera a capacidade instalada o porcentual saltou de 9% para 28%. "Não é aproveitar-se da situação. Mas se trata da oportunidade das empresas trabalharem no azul para aumentar o investimento e acompanhar o crescimento da economia", diz o diretor da Transportadora Americana (TA), Celso Luchiari.
No início do mês passado, a Associação Nacional de Transporte de Carga e Logística (NTC) apresentou sondagem com os 3.500 associados e verificou que havia defasagem média de 17,6% nos preços de fretes praticados no País. A partir deste número, cada companhia negociou os reajustes necessários com seus clientes, destacou o presidente da entidade, Flávio Benatti.
"Estamos vivendo um momento muito bom da economia nacional e isso tem reflexo direto no transporte rodoviário, responsável por 60% da carga do País e 93% do fluxo paulista", diz ele. Como a maioria das empresas tem contrato de médio e longo prazos, os novos preços são amplamente debatidos com os clientes. "Nessa negociação, alguns aceitam outros não. Perdemos alguns contratos no último reajuste, mas precisamos recompor a margem", diz Luchiari, revelando que o setor deve ter novo reajuste de 5% em breve.
Para o diretor da Rapidão Cometa, Edward Montarroyos, os reajustes também estão associados à precária infra-estrutura do País, que provoca descompasso entre os custos e as receitas. Em 2006, a rentabilidade das empresas de transporte rodoviário estava em torno de 2%, segundo o estudo da Coppead.
FROTA
Na avaliação de Fleury, apesar de não ocorrer num momento adequado para o cenário inflacionário do País, os aumentos do frete, por outro lado, pode dar maior poder financeiro para as transportadoras renovarem ou ampliarem a frota, considerada velha para os padrões internacionais.
Na TNT Mercúrio, a maior empresa do setor, cerca de 400 novos veículos deverão ser incorporados à frota da companhia (composta por mais de 1,5 mil veículos próprios e 2 mil veículos agregados) até o fim do ano, informa o presidente da transportadora, Roberto Rodrigues. "Estamos nos preparando para o segundo semestre, que é mais aquecido. O ano promete ser muito bom."
Algumas transportadoras, no entanto, têm tido dificuldades para conseguir expandir a capacidade instalada por causa das filas de entrega de caminhões nas montadoras, que variam entre três e nove meses.
Por precaução, alguns clientes das transportadoras entraram em campo para tentar facilitar as compras. O diretor de logística da Votorantim, Fred Fernandes, conta que há cerca de um ano criou um projeto de renovação de frotas.
Ele negocia diretamente a compra dos veículos com as montadoras (incluindo taxa de juros, manutenção por km rodado e seguro) e depois oferece um pacote ao seu transportador. Tanta preocupação tem motivo de ser. A empresa movimenta cerca de 5 mil caminhões diariamente. Segundo o diretor, 93% do transporte dos produtos da empresa é feito por meio rodoviário e 7% por ferrovia.