Título: Pela 1ª vez em 9 anos, dólar fecha abaixo de R$ 1,60
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/06/2008, Economia, p. B12
Decisão dos EUA de manter taxa de juros valoriza a moeda brasileira
A decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) de manter a taxa básica de juros em 2% ao ano fez com que o dólar perdesse terreno ante a maioria das moedas globais ontem. No caso do Brasil, isso significou uma nova valorização do real. A moeda americana encerrou a quarta-feira cotada por R$ 1,591, em queda de 0,69%. É a primeira vez desde 20 de janeiro de 1999 que fecha abaixo de R$ 1,60.
¿O comunicado do Fed divulgado após a reunião foi mais brando do que se esperava, o que significa que o juro nos EUA pode levar mais tempo para ser elevado do que se esperava¿, explicou o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa.
Como ocorre na maioria dos países, a inflação americana está em um nível considerado desconfortável pelo banco central. Por isso, a expectativa é de que o Fed, apesar dos problemas econômicos decorrentes da crise imobiliária, inicie no segundo semestre um processo de elevação do juro.
Investidores que aplicam títulos de governos tendem a colocar seu dinheiro em países nos quais a taxa de juros seja comparativamente mais alta do que em outros. No caso do Brasil, a taxa Selic é hoje de 12,25% ao ano e deve subir ainda mais até o fim de 2008.
Na zona do euro, o juro básico é de 4% ao ano, mas, segundo disse ontem o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, pode começar a subir já no próximo encontro da instituição. No início da noite de ontem, a moeda européia avançava 0,62% ante o dólar, cotada por US$ 1,566.
TENDÊNCIA
Para analistas, a tendência para o real, ao menos no curto prazo, ainda é de valorização, mas em um ritmo menor que o dos últimos anos. ¿A moeda brasileira tem sido alvo de forças opostas¿, afirmou o economista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani.
¿De um lado, os preços das commodities em alta, o baixo prêmio de risco brasileiro, em decorrência do grau de investimento, e o diferencial da taxa de juros interna e externa jogam a favor da valorização do real¿, observou. De outro, disse, estão a queda do dólar no mundo todo e o crescente déficit em conta corrente do Brasil.
As transações correntes incluem a balança comercial, a balança de serviços e as transferências unilaterais. Nos últimos meses o déficit dessa conta cresceu fortemente, o que levou o BC a elevar sua projeção para o rombo em 2008 de US$ 12 bilhões para US$ 21 bilhões.
Hoje, a previsão de Padovani para o dólar no fim do ano é de R$ 1,60. Newton Rosa estima R$ 1,65, mas reconhece que pode ser ¿obrigado¿ a revê-la para baixo. Mas, assim como Padovani, ele acredita que ¿em algum momento¿ o déficit em conta corrente começará a se refletir na taxa de câmbio, ou seja, implicará desvalorização do real.
Padovani ressalta, porém, que nem mesmo esse cenário deverá significar uma expressiva perda da moeda brasileira. Para ele, a atual estrutura da economia do País deve fazer com que o déficit em conta corrente não exploda. Por isso, prevê um dólar na casa de R$ 1,60 ¿nos próximos anos¿.