Título: O diagnóstico da inflação
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/06/2008, Notas e Informações, p. A3
O Relatório de Inflação divulgado quarta-feira pelo Banco Central (BC) é bem mais sombrio que o do primeiro trimestre, publicado em março, e bem mais incisivo quanto aos perigos à frente. As pressões inflacionárias, inicialmente localizadas em alimentos, petróleo e outras matérias-primas, já se disseminam e afetam um número cada vez maior de produtos. É preciso, portanto, conter o repasse e o contágio. Sem isso, a inflação crescente será incorporada nas expectativas de consumidores e empresários e o seu controle se tornará mais difícil. O quadro ficará ainda mais complicado se os agentes começarem a tentar recompor salários e preços, movimentando uma espiral de aumentos contínuos. Há um dado positivo, no entanto, nesse mesmo alerta: os dirigentes do BC não mostram complacência nem tranqüilidade em face de uma inflação que ainda é menor que a da maior parte das grandes economias emergentes.
O Relatório de Inflação, como os anteriores, expõe um amplo quadro da economia brasileira, analisa as condições internacionais e avalia as perspectivas de expansão econômica, de variação dos preços e de evolução das contas externas. Além disso, traz uma seção especial, e muito convincente, sobre a importância da ação preventiva contra a inflação. Como na medicina, a análise da experiência vivida pela atual direção do BC mostra as vantagens do diagnóstico precoce e da ação rápida. O resultado é mais seguro e o tratamento é menos doloroso: ¿pressões inflacionárias oriundas de excesso de demanda sobre oferta tendem a ser mais facilmente controladas no estágio inicial, antes de contaminar as expectativas dos agentes e as decisões de preços e salários de forma persistente¿. O problema é resolvido com menor perda de produto real.
Os autores do Relatório reconhecem, naturalmente, a origem externa de grande parte das pressões inflacionárias. Mas não deixam de mostrar como a demanda interna - consumo e investimento privados, juntamente com os gastos públicos - contribui para a assimilação e para a difusão dos aumentos de preços. Como já fizeram na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), dão muito mais peso do que o presidente da República e o ministro da Fazenda a esses componentes. A demanda interna tem sido o principal motor do crescimento econômico e esse dado é sem dúvida positivo, mas o ritmo da expansão, advertem os economistas do BC, tem sido incompatível com o crescimento da oferta. É necessário, portanto, um ajuste, e o principal instrumento será a política de juros, como foi no surto inflacionário de 2004.
O Relatório é diplomático. Não cria um confronto aberto com o Executivo. Tudo se passa como se houvesse um acordo de fronteiras: o pessoal do BC não dá palpite sobre a política fiscal, limitando-se a registrar e a analisar os dados, e em contrapartida o ministro da Fazenda e outras autoridades do Executivo não interferem nas decisões do Copom. Mas a diferença de pontos de vista é bastante clara.
Apesar das advertências, o tom geral do Relatório é otimista quanto ao crescimento econômico neste e nos próximos anos. Esse otimismo é condicionado, naturalmente, à hipótese de sucesso no controle da inflação.
As projeções das contas externas mudaram consideravelmente nos últimos três meses. O déficit na conta corrente do balanço de pagamentos é agora estimado em US$ 21 bilhões. O relatório anterior previa um buraco de US$ 12 bilhões. O aumento da exportação continua projetado em 13,3%, mas a importação, segundo o novo cálculo, deve crescer neste ano 30,2%, 1,7 ponto mais que no cálculo de março. Também a estimativa da conta de serviços foi revista, principalmente por causa do aumento da remessa de lucros e dividendos.
O buraco nas transações correntes é a contrapartida natural do excesso da demanda em relação à oferta interna. Por enquanto, o déficit é bem menor, proporcionalmente, que o de várias outras economias emergentes e, além disso, pode ser coberto com folga pelo investimento estrangeiro direto. Neste momento, o Brasil importa poupança externa e o balanço de pagamentos continua administrável. Mas a inflação preocupa e um pouco mais de controle na economia interna aumentaria a segurança do País. Se o Executivo contribuísse para esse controle, moderando sua despesa, tanto melhor, mas o ajuste de R$ 8,2 bilhões anunciado pelo ministro do Planejamento não mudará muito o quadro fiscal observado até agora.