Título: Inflação ameaça reservas em 60 países, diz FMI
Autor: Mello, Patrícia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/07/2008, Economia, p. B3

Para Strauss-Kahn, alta mundial dos preços de alimentos e do petróleo põe em risco os dez últimos anos de boas políticas macroeconômicas

A alta dos preços dos alimentos e do petróleo deixou alguns países numa ¿situação crítica¿, disse ontem o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. Segundo estudo do Fundo, há 60 países sob risco de acabar com as reservas internacionais se os preços desses itens se mantiverem no nível atual.

¿Se os preços do petróleo se mantiverem no nível atual e os alimentos continuarem subindo, alguns governos não conseguirão alimentar a população e ao mesmo tempo manter a estabilidade da economia conquistada a altos custos¿, disse Strauss-Kahn. Segundo ele, os dez últimos anos de boas políticas macroeconômicas estarão ameaçados pela inflação. O barril do petróleo subiu de US$ 30 em 2003 para mais de US$ 140 recentemente. A inflação dos alimentos dobrou desde 2006.

Para o Brasil, nos cálculos do Fundo, o impacto da alta dos preços do petróleo e dos alimentos será relativamente pequeno, o equivalente a 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no déficit em conta corrente em 2009. Considerando apenas o choque do petróleo, o impacto seria equivalente a 0,4% do PIB, mas a alta dos alimentos será positiva para o País, que é predominantemente exportador (provocaria redução de 0,3% do PIB no déficit).

O FMI prevê que o déficit em conta corrente do Brasil será de 1% do PIB, em vez de 0,9% em 2009. A estimativa está desatualizada, já que a maioria dos bancos prevê que o déficit em conta corrente vai ultrapassar os 2,5% do PIB em 2009.

Na América Latina, os grandes perdedores serão Haiti, Nicarágua e Honduras, segundo o Fundo. Países como Chile (aumento de 0,6% do PIB no déficit) e Suriname (0,3%) também serão bastante afetados.

A Argentina terá grande impacto positivo, equivalente a 1,7% do PIB em redução no déficit em conta corrente (superávit de 1,2% do PIB em 2009, na previsão do FMI). No México, grande produtor de petróleo, o impacto também é positivo - 0,3% do PIB de redução no déficit em conta corrente. O Uruguai terá queda equivalente a 0,7% do PIB na conta corrente.

O estudo cita 18 países africanos em perigo por causa do choque do petróleo e da inflação dos alimentos: Eritréia, Etiópia, Guiné, Libéria, Madagáscar, Malawi, Congo, Zimbábue, Benin, Burkina Fasso, República Centro-Africana, Guiné-Bissau, Mali, Togo, Burundi, Comoros, Gâmbia e Serra Leoa.

Segundo Strauss-Kahn, os governos têm adotado medidas positivas e ¿nem tão positivas¿ contra o choque do petróleo e dos alimentos. ¿É positivo ampliar os programas de ajuda aos pobres, as redes de segurança para protegê-los da alta nos preços, e a redução de impostos sobre comida¿, disse. ¿Mas há medidas muito ruins, como proibir exportações e aumentar subsídios a combustíveis.¿

Ele informou que o Fundo está fazendo empréstimos a países com desequilíbrio no balanço de pagamentos por causa do aumento com importações de petróleo e alimentos. A situação é pior na África - na Libéria, por exemplo, a importação de petróleo chegou a 15% do PIB, equivalente à totalidade das reservas do país.

Strauss-Kahn, que participará da reunião do G-8 no Japão na semana que vem, espera que esse seja um dos principais temas debatidos no encontro.