Título: Farc acusam guerrilheiros de traição
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Fonte: O Estado de São Paulo, 12/07/2008, Internacional, p. A18

No 1.º comunicado após resgate de Ingrid e mais 14 reféns, grupo diz que seus carcereiros `facilitaram a fuga¿

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) acusaram ontem de traição os carcereiros da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt e dos outros 14 reféns da guerrilha resgatados há duas semanas por militares colombianos. ¿A fuga dos 15 prisioneiros de guerra, no dia 2 de julho, foi conseqüência da desprezível conduta de César e Enrique, que traíram seu compromisso revolucionário e a confiança depositada neles¿, afirma a guerrilha em seu primeiro comunicado desde a chamada Operação Xeque, que libertou os reféns.

César é o codinome do guerrilheiro Gerardo Aguilar e Enrique, de Alexander Farfán. Ambos foram capturados pelo Exército na operação. No texto do comunicado, divulgado no site da Agência Bolivariana de Notícias, a guerrilha reitera sua vontade de chegar a um acordo humanitário com o governo colombiano e alerta que a insistência de Bogotá em tentar resgatar militarmente os reféns pode pôr a vida deles em risco.

¿Mantemos vigente nossa política de tentar acordos humanitários que alcancem a troca (de reféns por guerrilheiros presos) e protejam a população civil dos efeitos do conflito¿, diz o texto. ¿Mas, se o governo insistir no resgate como único meio, deve assumir todas as conseqüências de sua temerária e aventureira decisão.¿ A ordem dos guerrilheiros é executar os cativos caso haja uma tentativa de resgate.

Segundo a versão oficial, César e Enrique foram enganados pelo Exército. Eles teriam colocado os reféns num helicóptero das Forças Armadas porque uma farsa teria feito os rebeldes acreditarem que esse helicóptero pertencia a uma organização humanitária que levaria os cativos até o líder máximo da guerrilha, Alfonso Cano. Jornais suíços divulgaram que os dois guerrilheiros teriam recebido US$ 20 milhões pelos reféns, mas Bogotá negou a versão. Nesta semana, os EUA pediram a extradição dos dois rebeldes.

Fortalecido pelo sucesso da Operação Xeque, o presidente colombiano, Álvaro Uribe, reuniu-se ontem com o venezuelano Hugo Chávez em Punto Fijo, no nordeste da Venezuela. Em entrevista ao lado de Uribe após o encontro, Chávez anunciou o ¿início de uma nova etapa nas relações¿ com a Colômbia. ¿A reunião começou e terminou bem, com um grande otimismo das duas partes¿, disse Chávez. ¿A partir de hoje começa uma nova etapa.¿

Uribe também qualificou o encontro como ¿muito construtivo¿. Ele disse que aceitou as reclamações do venezuelano por ter sido afastado da mediação das negociações com as Farc sem aviso, em novembro, e Chávez o interrompeu para dizer que aceitou suas desculpas.

Os dois líderes discutiram um projeto agroindustrial binacional, a construção de um gasoduto e de uma ferrovia e as oportunidades de negócios entre a PDVSA e a colombiana Ecopetrol. Chávez havia congelado as relações com Bogotá em março, após a Colômbia atacar um acampamento das Farc no Equador.