Título: Trégua de Chávez e Uribe sela vitória do pragmatismo
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/07/2008, Internacional, p. A20

Para analistas, América Latina dá `guinada ao centro¿ quando populistas, sob pressão, apelam à moderação

O encontro entre o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e o colombiano, Álvaro Uribe, selou na sexta-feira o que parece ser uma boa notícia para a política latino-americana: a vitória do pragmatismo. Analistas explicam que países como Colômbia e Brasil, que adotaram a ¿via pragmática¿ para tornar suas economias competitivas, fortaleceram-se e consolidaram-se como modelos de desenvolvimento na região.

Por outro lado, Chávez e os que seguiram o caminho da confrontação ideológica foram obrigados a moderar seus discursos e refazer suas estratégias com variáveis mais realistas - o que, às vezes, significa cooperar com o vizinho, apesar das desavenças políticas.

¿Não deveria causar espanto o fato de a América Latina estar tomando o rumo do centro¿, disse ao Estado, por telefone, o economista e analista político venezuelano Moisés Naím, editor da revista Foreign Policy. ¿Apesar de todo o entusiasmo com que se anunciou uma suposta `guinada à esquerda¿ após o ciclo de eleições finalizado em dezembro de 2006, já sabíamos que esse modelo ultrapassado adotado por Chávez e seus aliados teria de corrigir seus rumos cedo ou tarde. Não deu certo em outras décadas, por que daria desta vez?¿

No caso venezuelano, a mudança brusca é inegável. O discurso para o público interno arrefeceu depois da derrota de Chávez no referendo sobre a reforma constitucional, em dezembro, quando ele teve de desistir de implementar, a toque de caixa, seu ¿socialismo do século 21¿.

Agora, Chávez sinaliza com uma trégua também na política externa. ¿Para ele, o resgate da refém Ingrid Betancourt em uma ação militar colombiana foi uma derrota comparável à perda do referendo¿, disse Elsa Cardozo, especialista em relações internacionais da Universidade Metropolitana de Caracas. Para ela, o grande erro do venezuelano em sua tentativa de mediar o conflito colombiano foi demonstrar simpatia pela guerrilha e pedir o reconhecimento de seu status de força beligerante no momento em que, no início do ano, um grupo de reféns recém-libertados relatava ao mundo as atrocidades cometidas na selva. Pegou tão mal que nem os aliados próximos de Chávez o apoiaram.

¿Já Uribe, com ajuda dos EUA e um estilo muito mais discreto, conseguiu uma vitória inegável¿, afirmou Cardozo. ¿Saiu-se bem até para a população venezuelana, que vê as Farc com ressalva.¿

O fato de Uribe ter sido recebido ¿como irmão¿ na Venezuela, meses depois de Chávez chamá-lo de ¿covarde, mafioso e mentiroso¿, é um dos exemplos dessa súbita moderação do venezuelano, mas não o único.

Na semana passada, Chávez se disse disposto a melhorar as relações com os EUA - no que foi seguido, dias depois, pelo boliviano Evo Morales. Em junho, ele já havia mudado de posição com relação às Farc e pedido à guerrilha que libertasse todos os reféns ¿sem condições¿. ¿O tempo da guerrilha acabou¿, proclamou na época.

A ¿solidariedade bolivariana¿, tão exaltada pelo venezuelano quando tomou posse pela terceira vez, ano passado, prometendo levar a sua revolução para toda a América Latina, parece ter diminuído à medida que a situação interna de seus aliados se complicou.

¿O modelo de centralização estatal e nacionalizações provocou fuga de investimentos e uma explosão da inflação¿, disse José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais e ex-embaixador do Brasil na Argentina. ¿Por algum tempo, Bolívia, Venezuela, Nicarágua e Argentina culparam `as elites¿, entidades internacionais ou os EUA por suas dificuldades internas, mas agora há um fenômeno de reconhecimento gradual pela população de que seu discurso populista não é eficiente.¿

Na Bolívia, o projeto de Evo para uma nova Constituição está estagnado e a oposição regional, fortalecida, exige mais independência. Sete dos nove departamentos do país se uniram para pedir mais autonomia, uma crise que pode descambar em violência se não for levada para a mesa de negociações.

QUEDA LIVRE

Em meio a denúncias de autoritarismo, Daniel Ortega, na Nicarágua, amarga índices de aprovação de 21% por causa da crise econômica e já perdeu apoio de sete dos oito líderes sandinistas que estiveram a seu lado na revolução de 1979.

Na Argentina, a queda-de-braço do governo com os agricultores provocou a disparada dos preços, a redução do consumo e a queda abrupta da popularidade de Cristina Kirchner. E, no Equador - um dos países que menos crescem na região -, pesquisas apontam que Rafael Correa terá sérias dificuldades para aprovar em referendo seu projeto de reforma constitucional. ¿Não é à toa que Correa já anunciou que sairá da Alba (Aliança Bolivariana das Américas), proposta por Chávez¿, disse Naím. ¿Falta à Venezuela capacidade de gestão para avançar em projetos de integração e em iniciativas que exijam mais que assinar um cheque ancorado em recursos do petróleo.¿

Enquanto isso, no outro grupo, países como Brasil, Colômbia e Chile se fortaleceram apostando em uma diplomacia definida mais por interesses do que por afinidades ideológicas. Mesmo nos momentos de maior tensão na crise com a Venezuela, por exemplo, Uribe sempre defendeu a normalização das relações com o país vizinho - certamente não por ter simpatia por Chávez, mas em nome dos US$ 5,5 bilhões que a Colômbia exporta para os venezuelanos.

Discretamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também vem, segundo analistas, anulando Chávez. Além de manter boas relações com líderes de todos os países da região, Lula consegue agradar aos EUA sem se indispor publicamente com a Venezuela.

¿A tendência é que todos os países caminhem para essa diplomacia menos ideológica para obter mais resultados práticos¿, afirmou Luis Fernando Ayerbe, coordenador do programa de pós-graduação em Relações Internacionais da Unesp. ¿Até porque chega um momento em que apenas discursos não garantem mais votos.¿