Título: Ruralistas podem recorrer à Corte Suprema
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/07/2008, Internacional, p. A17
Líderes de associações ameaçam contestar se o Senado aprovar o aumento de impostos proposto pelo governo
Líderes das associações ruralistas anunciaram ontem que recorreriam à Corte Suprema de Justiça se o Senado aprovasse o projeto de lei da presidente Cristina Kirchner que determina um elevado aumento dos impostos das exportações agrícolas.
O Senado avaliava ontem o polêmico projeto em meio a intensos debates. A votação deveria ocorrer na madrugada de hoje. O projeto de Cristina necessitava de 37 votos dos 72 membros do Senado para ser aprovado. Versões divulgadas pela mídia argentina, indicavam que 36 senadores estavam dispostos a apoiar o projeto do governo, que tem maioria no Senado, e 35 votariam contra.
Apenas um senador ainda estava indeciso depois de 14 horas de discussões. Se ele votasse contra, causaria um empate, que seria decidido pelo vice-presidente Julio Cobos. O problema para o governo é que Cobos posicionou-se nas últimas semanas contra o projeto. Mas, segundo rumores, ele poderia pode votar a favor para evitar uma grave crise política.
Havia também a versão de que, na hora da votação, entre dois e quatro senadores poderiam optar pela abstenção. Nos últimos dias, foram feitas denúncias de que o governo teria comprado votos dos senadores em troca de cargos e fundos especiais para as províncias.
Eduardo Buzzi, líder da Federação Agrária, disse que se forem derrotados os ruralistas recorrerão à Corte Suprema, argumentando que o aumento de impostos de Cristina é ¿inconstitucional¿, pois vai muito além dos tributos normais (que possuem um teto de 35%) e podem ser considerados como ¿confiscos¿. Segundo o projeto, os impostos podem passar de 45%. Os ruralistas também prometem continuar com as manifestações contra a presidente até obter a anulação do aumento dos impostos para o setor.
Moradores de Buenos Aires e de cidades do interior organizaram ontem panelaços contra o projeto do governo. Na capital, os protestos ocorreram nos bairros de classe média e alta, cujos moradores também promoveram um buzinaço contra a iniciativa de Cristina.
Uma pesquisa publicada pelo jornal Clarín indicou que 88,7% dos entrevistados consideram que, independentemente da votação no Senado, a crise com os ruralistas não será resolvida. Segundo o analista político Rosendo Fraga, ¿se o governo vencer, manterá sua situação, mas, mesmo assim, o conflito com o setor agropecuário continuará¿. Caso o governo seja derrotado, o conflito será outro, provocado pelos efeitos da derrota dentro do peronismo, acrescentou Fraga.
O casal Kirchner está perdendo o apoio de deputados, senadores e governadores peronistas. E a crise com os ruralistas também provocou divisões entre Cristina e seu marido, Néstor Kirchner, que se acusam pelos problemas do governo.
Setores dissidentes do Partido Justicialista (peronista) já falam em pós-kirchnerismo. Esses grupos foram fortalecidos com o desgaste do governo.
Os grupos dissidentes querem ampliar seu poder nas eleições parlamentares de 2009, que serviriam como trampolim para as presidenciais de 2015. A idéia original dos peronistas era tentar reeleger Cristina e apresentar Kirchner como candidato em 2015. Mas os analistas destacam que se o poder dos Kirchners continuar se esvaindo, o casal - a mais de três anos do fim do mandato de Cristina - terá de negociar a sucessão com os setores dissidentes peronistas para evitar, no futuro, o risco de serem investigados pelos casos de corrupção.