Título: Cristina esteve a ponto de renunciar
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/07/2008, Internacional, p. A14
Segundo imprensa, idéia era levar população a implorar por sua permanência, mas aliados não concordaram
A presidente argentina, Cristina Kirchner, esteve a ponto de renunciar na tarde de quinta-feira, segundo a imprensa argentina. De acordo com colunistas de quatro dos principais jornais do país - Clarín, La Nación, Crítica e Ámbito Financiero -, a idéia radical partiu de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, enfurecido com a derrota, no Senado, da proposta de aumento de impostos sobre as exportações agrícolas.
Fontes citadas anonimamente pelos jornais informaram que Kirchner também estava irritado com a forma apertada com que o projeto tinha passado pela Câmara de Deputados e com a perda de apoio dos governadores. O ex-presidente teria passado a manhã da quinta-feira na residência de Olivos aos gritos de ¿não nos deixam governar¿.
O objetivo, com a apresentação da renúncia, seria pôr em marcha a ¿Operação Clamor¿ - que consistiria em causar um grande impacto que levaria a população e a classe política a implorar que Cristina permanecesse no cargo. Uma semana atrás, numa reunião com intelectuais, Kirchner tinha afirmado publicamente: ¿Se o Senado não aprovar o projeto, o país não terá mais a presidente.¿
O secretário jurídico da presidência, Carlos Zanini, velho amigo do casal, até teria preparado o texto do decreto de renúncia no meio da tarde de quinta-feira. Ao mesmo tempo, militantes kirchneristas radicais se preparavam para marchar até a Praça de Maio para clamar pela permanência de Cristina.
O arriscado plano começou a fazer água por causa da resistência dos principais aliados políticos do governo. Líderes sindicais e prefeitos dos municípios da Grande Buenos Aires, principal reduto eleitoral dos Kirchners, recomendaram o recuo. No final da tarde, o casal mudou de idéia e Cristina optou por continuar na presidência.
Em agosto de 1955, o fundador do partido dos Kirchners, o general Juan Domingo Perón, ameaçou renunciar para mobilizar a população em seu favor e assim impedir o sucesso de um golpe militar que estava em preparação. Semanas depois, no entanto, o golpe foi levado a cabo e Perón teve de partir para o exílio. Em maio de 1974, novamente presidente, Perón ameaçou renunciar em meio a conflitos sociais e políticos que abalavam seu governo. Sindicatos e empresários baixaram o tom do confronto e Perón deixou as ameaças de lado.
MAIS PRESSÃO
Fortalecidos com a vitória no Senado na quinta-feira de madrugada, os líderes ruralistas pretendem agora discutir ¿políticas agrárias¿ com o governo. ¿É necessário mais¿, disse Eduardo Buzzi, líder da Federação Agrária. Os ruralistas - que se transformaram nos últimos quatro meses numa inesperada força política ao realizar quatro locautes contra a presidente e bloquear estradas - exigem o fim dos limites para as exportações de trigo e carne, além de melhores linhas de crédito.
Nos próximos dias, os líderes do setor se reunirão para definir a estratégia de pressão sobre o governo.
Ontem, eles obtiveram mais uma vitória com a revogação oficial da Resolução 125, o decreto que em março estabeleceu o aumento substancial dos impostos sobre as exportações agrícolas e a criação de um sistema ¿móvel¿ de impostos - que oscilariam de acordo com o preço internacional (em alguns casos, isso significava tributos de até 90%).
A revogação da Resolução 125 era uma medida considerada óbvia no âmbito político, já que o projeto de lei enviado ao Parlamento com o mesmo objetivo foi rejeitado. Mas, ao longo de toda a quinta-feira, o governo não havia tomado nenhuma medida para eliminá-la. Na espera da revogação, os agricultores não venderam soja, em sinal de que manteriam sua posição de conflito.
Ao abrir o Diário Oficial ontem de manhã, os líderes ruralistas perceberam com irritação que Cristina não havia determinado a revogação. Os governadores kirchneristas, para evitar problemas com os eleitores das áreas agropecuárias, pressionaram a presidente, afirmando publicamente que era preciso respeitar a decisão do Congresso. Assim, ontem à tarde, o governo anunciou a revogação, informando que a alíquota sobre as exportações voltava a ser a que existia antes da resolução, isto é, de 35%.