Título: Lula se oferece para diálogo com Farc
Autor: Paraguassú, Lisandra
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/07/2008, Internacional, p. A16
Em encontro com Uribe, Brasil busca o apoio da Colômbia para formar Conselho de Defesa da América do Sul
A visita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia hoje à Colômbia terá como pano de fundo a tensão diplomática entre Colômbia e Equador, o futuro do Conselho de Defesa da América do Sul e, principalmente, o apoio explícito à política do presidente colombiano, Álvaro Uribe, no combate à guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
O apoio começa já na participação de Lula na comemoração da data nacional da Colômbia, amanhã, em Letícia, na fronteira com o Brasil. A cerimônia foi transformada em um ato pela libertação dos reféns ainda em poder das Farc, com apresentações de artistas colombianos - com a participação da Petrobrás no patrocínio -, incluindo a cantora Shakira.
A presença de Lula em Letícia é uma das ações com que o governo brasileiro pretende ajudar Uribe no combate à guerrilha. Também há planos para os setores de educação e saúde na área amazônica de fronteira para marcar a presença do Estado e minimizar a influência das Farc. A participação brasileira deverá ir ainda além: até agora praticamente um espectador nas negociações para libertação de reféns - e sempre muito criticado por isso - o governo brasileiro será posto por Lula oficialmente à disposição de Uribe caso sejam necessárias negociações com as Farc.
O apoio explícito a Uribe pode servir para amaciar as restrições da Colômbia um projeto essencialmente brasileiro, o Conselho de Defesa da América do Sul, planejado e negociado pelo ministro da defesa, Nelson Jobim. Apresentado durante a reunião da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) em Brasília, em maio, o conselho tornou-se um dos fiascos do encontro, já que não foi a lugar nenhum. Em parte, justamente pela resistência colombiana.
Até agora, no entanto, o governo brasileiro não sabe nem mesmo que resistências são essas exatamente. Lula pretende conversar com Uribe e tentar contornar as restrições para que o tema avence no próximo encontro da Unasul. Lula também deve tratar das relações entre Colômbia e Equador, estremecidas desde a incursão do Exército colombiano em território equatoriano para atacar um acampamento das Farc. Com boas relações com o governo dos dois países, Lula quer usar seu prestígio para uma reaproximação.
Esta é a segunda visita de Estado do presidente a Colômbia. A primeira foi em 2005. Dessa vez acompanhado por vários empresários, Lula quer incrementar o comércio entre os dois países, hoje em torno de US$ 2 bilhões e favorável ao Brasil.
RECUO
Ainda ontem, Uribe desistiu de apresentar uma proposta de referendo para repetir as eleições presidenciais de 2006, depois da decisão da Corte Constitucional de não revisar a reforma que possibilitou sua reeleição. A oposição acusa Uribe de ter conseguido aprovar a reforma constitucional de 2004 por meio da compra de votos de deputados.