Título: Chávez perde apoio entre militares
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/07/2008, Internacional, p. A13
Críticas e protestos são mais freqüentes; pressão dos quartéis pode estar por trás dos recuos do venezuelano
Na hipótese mais extrema, há uma divisão entre militares chavistas e os críticos ao governo. Na mais tímida, está começando a crescer em alguns quartéis o mal-estar com certas medidas do presidente Hugo Chávez, como a exigência do juramento de ¿Pátria, Socialismo ou Morte¿. Mas é cada vez mais difícil negar o que oficiais da reserva, analistas independentes e agora até militares na ativa já se atrevem a dizer em voz alta: as Forças Armadas venezuelanas estão inquietas.
¿É bem provável que a pressão crescente dos militares seja um dos fatores por trás dessa recente moderação do discurso de Chávez¿, diz o especialista em temas militares Aníbal Romero, que foi professor por mais de 20 anos no Instituto de Altos Estudos de Defesa Nacional, voltado para a formação de militares. ¿Parte das Forças Armadas também não gostou desse discurso socialista e das mudanças que o presidente pretendia implementar com a reforma constitucional derrotada no referendo de dezembro.¿
A decepção crescente com o programa chavista foi confirmada ao Estado por fontes ligadas às Forças Armadas venezuelanas, mas também já está se tornando pública. No mês passado, o general Ángel Vivas Perdomo foi preso por ter entrado com um processo no Tribunal Supremo de Justiça venezuelano contestando a constitucionalidade da obrigação do juramento socialista. No dia seguinte foi solto, mas com algumas condições - precisa se apresentar para a promotoria militar a cada 15 dias e não pode falar com jornalistas.
Segundo a ONG Controle Cidadão para a Segurança, a Defesa e a Força Armada Nacional, 800 militares venezuelanos estão afastados de suas funções - a maior parte por se opor à ¿politização¿ das Forças Armadas. Cerca de 1.200 apresentaram pedidos de aposentadoria antecipada e entre os oficiais da reserva são mais freqüentes os protestos contra o presidente.
¿É emblemático o fato de Chávez ter se recusado a fazer mudanças na cúpula das Forças Armadas no dia 5, quando anunciou as promoções dos militares¿, afirma Rocío San Miguel, diretora da Controle Cidadão. Para ela, o presidente manteve quase todos os oficiais mais graduados em seus cargos - mesmo os que já poderiam passar para a reserva aposentar - porque quer evitar mudanças num momento em que cresce o descontentamento principalmente entre o médio oficialato.
Romero concorda: ¿Calculo que nos níveis médios da hierarquia militar apenas 20% dos oficiais estejam hoje incondicionalmente ao lado de Chávez, enquanto os altos mandos são escolhidos a dedo e trocam sua fidelidade por privilégios e altos salários¿, diz.
GUERRA ABERTA
Entre os maiores golpes para o presidente estão os recentes ataques do general Raúl Baduel, ministro de Defesa até julho de 2007. Em 1982, Baduel foi um dos três militares a prestar junto com o então capitão Hugo Chávez o que ficou conhecido como juramento do Samán de Güere, o marco inicial do movimento bolivariano (Jesús Urdaneta, o segundo do trio também se afastou do presidente e Felipe Acosta morreu no ¿Caracaço¿, em 1989).
Vinte anos depois, Baduel liderou a ação que recolocou Chávez no poder após uma tentativa de golpe. A aliança do general com o presidente, porém, terminou definitivamente em novembro, durante a campanha do referendo sobre a reforma constitucional chavista - classificada por Baduel como um ¿golpe de Estado¿.
Na quarta-feira o general denunciou estar sendo ¿perseguido pelo governo¿, mencionando uma investigação aberta contra ele pela promotoria militar por ¿desvios de verba¿ e disse temer que o presidente mande matá-lo. O presidente não se pronunciou.
Quando Chávez foi eleito, em 1998, contava com aprovação quase unânime dos militares, que desde a ditadura de Marcos Pérez-Jimenez, 40 anos antes, não viam um de seus pares acender ao poder. Na última década, seu apoio nos quartéis oscilou com o vai e vem de seu inconstante, mas sempre estrondoso, discurso e o jogo de forças com a a oposição. O que fez a decepção com Chávez crescer nos últimos meses foram medidas anunciadas por ele desde que tomou posse pela terceira vez, há 18 meses - sendo a Reforma Constitucional a gota d¿água.
Não agradou a criação de milícias, que para alguns oficiais competem com as Forças Armadas e prejudicam a sua profissionalização. Muito menos as ameaças de conflitos com os EUA e a Colômbia. Pegou mal a aliança com Cuba e o projeto para implementar na Venezuela um sistema socialista - historicamente abominado por vastos setores das Forças Armadas latino-americanas. E causou resistência a obrigatoriedade do lema ¿Pátria, Socialismo ou Morte¿.
¿Trata-se de um slogan dos anos 60 e 70¿, diz o historiador venezuelano Domingo Irwin, especialista em temas militares.¿Para muitos oficiais, ter de repetir isso beira o absurdo.¿
Isso sem falar nos privilégios dos comandantes aliados de Chávez, que, segundo analistas, alimentam o rancor no médio oficialato por estarem muito além do padrão de outras épocas.
¿Chávez está perdendo apoio nas Forças Armadas da mesma forma que no resto da sociedade venezuelana¿, diz Rocío. ¿Felizmente, hoje há sinais de que os militares entenderam que qualquer tentativa de golpe seria condenada por países vizinhos e manipulada por políticos locais, mas devemos sempre considerar o risco de que, mais adiante e com uma escalada de tensões, setores radicais da oposição e do governo voltem a pensar em uso da força - e tentem cooptar setores militares.¿