Título: Inflação passada pressiona telefonia
Autor: Cruz, Renato; Chiara, Márcia De
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/07/2008, Economia, p. B7

Reajuste de 3,01%, que entra em vigor amanhã, poderia ter sido menor por causa dos ganhos de produtividade

O aumento das tarifas de telefonia fixa este ano ultrapassou o de 2007, apesar de as empresas terem registrado ganhos de produtividade maiores, que foram descontados do índice. Isto acontece por causa da inflação passada incorporada pelo Índice de Serviços de Telecomunicações (IST), que define os aumentos do setor. ¿O Fator X (índice de produtividade descontado do aumento) foi maior este ano¿, disse o gerente de Tarifas e Preços da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Vanderlei Campos.

A Telefônica, Brasil Telecom, CTBC Telecom e Sercomtel aumentam amanhã suas tarifas em 3,0118% e a Oi (antiga Telemar), em 2,7651%. O IST registrou aumento de 4,46% este ano, comparado a 2,91% em 2007. O Fator X foi de 0,684% para a Oi e de 0,275% para as demais empresas no ano passado. Este ano, com a adoção de uma nova maneira de calcular o indicador pela Anatel, o redutor subiu para 2,92%. Em 2007, o reajuste aprovado para a Oi foi de 1,8% e, para as demais empresas, de 2,2%.

¿O reajuste deste ano foi um evento satisfatório, comparando com os demais índices¿, afirmou Campos. Ele explicou que, no mesmo período, o IPCA subiu 5,58%, o IGP-M 11,52%, o IGP-DI 12,14% e o INPC 6,64%. Até 2005, quando não havia o IST, o índice de reajuste da telefonia fixa era o IGP-DI, o índice que teve o maior aumento no período.

A agência mudou a metodologia de cálculo do Fator X este ano. Antes, ele considerava a performance de cada empresa, o que levava a reajustes diferenciados para cada companhia. Agora, com a nova metodologia, o Fator X passou a incorporar, para todas as empresas, um componente que reflete os ganhos de produtividade da operadora mais eficiente do mercado.

¿Passamos a impor a todas as operadoras a produtividade de quem está na fronteira da eficiência¿, explicou Campos. Ainda não houve um reajuste único este ano porque o período incorpora parte dos indicadores do ano passado, com a metodologia antiga. A Embratel não chegou a pedir reajuste à agência. A empresa é concessionária (e, portanto, tem tarifas controladas) somente na longa distância. A competição na longa distância é tão acirrada que a companhia não teria como repassar os reajustes.

INFLAÇÃO

O impacto do aumento da tarifa de telefonia fixa nos índices de inflação não será tão significativo a ponto de provocar revisões para cima nas projeções para o ano, mas significa mais lenha na fogueira num ambiente de inflação elevada.

Nas contas da economista da Tendências Consultoria Integrada, Marcela Prada, o impacto no IPCA, índice usado como parâmetro de meta de inflação, será de 0,07 ponto porcentual. Impacto idêntico deverá ter no Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe, que mede a inflação apenas na cidade de São Paulo, segundo cálculos do coordenador do índice Marcio Nakane. Já no IPC Brasil, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o efeito será de 0,10 ponto porcentual, de acordo com o economista da FGV, André Braz.

A diferença entre o IPC-Fipe e os outros dois indicadores, o IPCA e IPC Brasil, é que no caso desses dois últimos a maior parte do efeito do aumento será captada em agosto porque os dois indicadores seguem o regime de competência, isto é, o reajuste é considerado quando ele é anunciado. Já a maior parte do impacto da alta da telefonia fixa no IPC-Fipe, 0,05 ponto porcentual, deve recair sobre o índice de setembro porque ele entra no cálculo da inflação quando realmente o consumidor efetua o pagamento da conta com o reajuste.

¿Num contexto normal, o reajuste de 3% não é muito, mas poderíamos passar bem melhor sem ele¿, afirmou Nakane. Ele observou que, com a inflação em trajetória ascendente, puxada especialmente pelos alimentos, o aumento da telefonia fixa é mais um fator de pressão.

Nakane lembrou também que o reajuste da telefonia fixa é um exemplo ¿clássico¿ de indexação. Apesar do setor ter criado um índice próprio, o IST, ele é afetado pelo desempenho da inflação passada medida por outros índices de inflação, como o IPCA, o IGP-M e o IGP-DI. Como esses índices acumulados em 12 meses registram altas significativas, eles carregam a inflação passada para o presente. De toda forma, Braz, da FGV, ponderou que o reajuste da telefonia é a metade da inflação ao consumidor e 25% dos IGPs.

NÚMEROS

3,0118 % é o reajuste que será aplicado nas tarifas da Telefônica, Brasil Telecom, CTBC Telecom e Sercomtel a partir de amanhã

2,7651% é o reajuste que será aplicado pela Oi (antiga Telemar)

4,46% foi o aumento do Índice de Serviços de Telecomunicações este ano, comparado a 2,97% em 2007

2,92% foi aumento do Fator X este ano