Título: Telecom Italia ameaçou deixar País
Autor: Godoy, Marcelo; Cruz, Renato
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/07/2008, Nacional, p. A6

Em depoimento à Justiça italiana, Tronchetti Povera relatou encontro com Lula em que fez ultimato

Marco Tronchetti Provera, ex-presidente da Telecom Italia (TI), revelou que deu um ultimato ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: se as regras do setor fossem mudadas, ele retiraria a empresa do Brasil. "Encontrei Lula e disse: se a lei fosse modificada, nós venderíamos todos os nossos ativos no Brasil, declarando que se tratava de um País onde não há segurança jurídica, e que o maior investidor estrangeiro no País deixava o Brasil porque ele não era um País confiável". A ameaça contra Lula ocorreu em 2003, quando Provera dirigia a TI e a Pirelli - ele permanece à frente da Pirelli.

Provera fez a revelação em seu depoimento à Justiça italiana durante as investigações da procuradoria da Milão sobre o esquema de espionagem montado pelo diretoria de segurança da TI contra políticos e empresários italianos e de outros países, entre os quais o banqueiro Daniel Dantas e a executiva Carla Cico, então presidente da Brasil Telecom.

Na época, a TI era contra a mudança do Plano Geral de Outorgas (PGO), que impedia que uma mesma operadora fosse dona de mais de uma área de concessão de telefonia fixa. O sonho da Telecom Italia era poder operar telefonia celular e fixa em uma mesma área para poder concorrer com os espanhóis da Telefonica.

Dantas já defendia então a união entre a Brasil Telecom e a Telemar (antigo nome da Oi), o que contrariava os interesses da TI. O decreto para a mudança no setor que favoreceria Dantas teria sido preparado, segundo disse Provera, pelo então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, investigado pela PF na Operação Satiagraha sob a suspeita de fazer lobby para o banqueiro do Opportunity.

Em setembro de 2003, Marco Tronchetti Provera visitou autoridades do governo em Brasília, ameaçando ir à Justiça para que o acordo com o Opportunity fosse cumprido e a empresa voltasse ao controle da Brasil Telecom. Miro Teixeira, que estava à frente do Ministério das Comunicações, chegou a defender abertamente o ponto de vista dos italianos.

O depoimento de Provera à Justiça italiano tornou-se público ontem. Com 155 páginas, ele foi dado no dia 27 de junho. O executivo era um dos investigados no escândalo de espionagem, mas acabou sendo excluído do processo pelo Ministério Público italiano. Ali, Provera conta a história de sua disputa com Dantas. Ele nega, por exemplo, que a Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT), que acabou sendo incorporada pela BrT, tenha sido adquirida por um preço exorbitante, como acusavam Dantas e os fundos de pensão acionistas da BrT. Diz que tudo não passou de manobra de Dantas, a quem acusa de agir de forma torta nos negócios, de ter métodos de "faccendiere" (quem usa tráfico de influência para obter vantagens no governo).

Provera confirma que o investidor Naji Nahas foi contratado por ele para servir de lobista da TI no Brasil. O italiano conta que conheceu Nahas em Monte Carlo. Vinte dias depois, o brasileiro foi ao seu escritório com um portfólio embaixo do braço. Eram reportagens sobre a vida de Nahas e seus problemas com a Justiça. "Ele disse que estava sendo absolvido em todos os processos."

Entre outras operações desenvolvidas por Nahas no Brasil estaria a negociação com Dantas que permitiu à TI operar com a tecnologia GSM em todo o Brasil em 2002, antes do prazo de 2003. Em troca de seus serviços, Nahas queria participação acionária na empresa, mas Provera refutou. Fez um acordo no qual o investidor ganharia de acordo com o sucesso da operação. "Não queria associar a imagem da empresa a Nahas", afirmou o italiano.

Provera confirma o conteúdo do depoimento do ex-chefe de segurança da TI, Giuliano Tavaroli, no qual este diz que Nahas recebia em dinheiro pelos serviços prestados. O executivo contou que não sabia que os pagamentos eram feitos assim, mas que foi informado depois que isso ocorria porque Nahas tinha medo de que o dinheiro fosse bloqueado pela Justiça brasileira se recebesse por meio de conta bancária. Sérgio Rosenthal, advogado de Nahas, afirmou que o investidor declarou tudo o que recebeu da TI pelos seus serviços.

Os procuradores queriam saber de Provera se o que era pago em dinheiro a Nahas teria servido para subornar parlamentares e integrantes do governo. Provera afirmou que os contatos com o governo brasileiro eram feitos por meio do embaixador italiano no Brasil e do então ministro das relações exteriores da Itália, Gianfranco Fini (Alianza Nazionale, partido da direita italiana).

"Então Nahas não teve contato com Lula?", perguntou o procurador Nicola Piacente. "Não, absolutamente não. Isso lhe era impedido por contrato", afirmou Provera.

Piacente e o procurador Fabio Napoleone também indagaram Provera sobre o caso Kroll. Os procuradores denunciaram na segunda-feira 34 acusados de espionagem ligados à TI, oito dos quais por terem invadido computadores do Opportunity, da Kroll e da executiva Carla Cico, indicada para a presidência da BrT por Dantas, e interceptado e-mails das vítimas.

Provera afirmou que, em 2002, Tavaroli lhe contou que seus homens haviam detectado a atividade de espionagem da Kroll contra a TI e contra seus familiares. O chefe da segurança teria constatado que um encontro de executivos da TI com integrantes do fundo Previ, em Lisboa (Portugal), havia sido espionado pela Kroll. Provera disse que procurou a cúpula da Kroll internacional para que a espionagem fosse suspensa. O encontro em Lisboa foi filmado. Essa suposta espionagem é alvo de processo na Justiça Federal, no qual Dantas e executivos da Kroll são réus.

A Kroll e Dantas negam a acusação, investigada pela Operação Chacal, da PF. Dizem que tudo não passa de uma farsa armada pela TI. Nélio Machado, advogado de Dantas, afirmou que o depoimento de Provera deve ser confrontado com outros dados à Justiça italiana, no qual fica clara a existência da rede de espionagem e de indícios de corrupção de autoridades brasileiras. "O mínimo que se tem de fazer é remeter cópias para cá a fim de que o Brasil tome as providências cabíveis, pois esses italianos cometeram crime aqui e influenciaram o processo da Operação Chacal. Mas o Ministério Público no Brasil tenta impedir que isso ocorra", disse.