Título: Indústria tem o 1º déficit da era Lula
Autor: Rehder, Marcelo
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/07/2008, Economia, p. B4
Saldo da balança de bens da indústria de transformação fica em US$ 1 bilhão negativos no primeiro semestre
Pela primeira vez desde o início do governo Lula, a balança comercial dos bens produzidos tipicamente pela indústria de transformação apresentou déficit no primeiro semestre deste ano. De janeiro a junho, o saldo entre as exportações e as importações desses produtos ficou negativo em US$ 1 bilhão, ante um superávit de US$ 11,5 bilhões em igual período de 2007. A situação tende a piorar, pois a elevação de 0,75 ponto porcentual na taxa básica de juros anunciada pelo Banco Central na semana passada deverá acelerar a valorização do real em relação ao dólar, o que rouba competitividade do produto nacional.
"É um quadro surpreendente pela violência da velocidade com que o saldo do setor passou de superavitário para deficitário, numa piora de US$ 12,5 bilhões de um ano para outro", diz Júlio Sérgio Gomes de Almeida, assessor econômico do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).
Levantamento feito pela entidade, com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, mostra que a última vez que o saldo comercial da indústria de transformação havia apresentado déficit num primeiro semestre foi em 2001, com resultado negativo de US$ 2,926 bilhões. Naquela época, porém, o setor já vinha acumulando déficits ano a ano.
São três os fatores apontados por Gomes de Almeida para explicar a piora no primeiro semestre de 2008. Entre eles estão o crescimento econômico, que demanda importação maior de máquinas e insumos industriais, e o aumento nos preços internacionais das matérias-primas (commodities) agrícolas e metálicas, que encarecem as compras externas. No entanto, o mais importante, segundo o Iedi, é a taxa de câmbio valorizada.
Na semana em que o BC acelerou o aperto monetário, o dólar fechou no menor valor desde19 de janeiro de 1999, cotado a R$ 1,573. Ontem, a moeda americana ensaiou um pregão de recuperação e fechou a R$ 1,575. Desde o início do ano, a moeda americana já acumula queda de 11,27%. "O nosso juro se distanciou mais ainda dos juros internacionais e este é um fator muito importante para a valorização adicional do real", frisa o assessor econômico do Iedi.
Depois de ter obtido a classificação de investimento seguro e pagando juros muito mais altos que os oferecidos pelos títulos americanos, o País passa a atrair mais capital estrangeiro. A conseqüência disso é que a oferta excessiva de dólares derruba a cotação da moeda no mercado brasileiro.
Normalmente, os efeitos de mudanças na taxa de câmbio costumam demorar de seis meses a um ano para aparecerem nos números do comércio exterior da indústria. "O déficit de US$ 1 bilhão no primeiro semestre é um reflexo da valorização de 17,7% do real em 2007."
As indústrias se queixam da perda de competitividade no mercado mundial e alegam que chegam a ter prejuízos nas vendas externas. "Com esse câmbio não vale a pena exportar, correndo o risco de perder dinheiro", diz José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Vitopel.
Terceira maior fabricante de embalagens plásticas flexíveis do mundo, com faturamento anual de US$ 450 milhões, a Vitopel resolveu reduzir em cerca de um terço as exportações neste ano, das 35 mil toneladas vendidas em 2007 para 23 mil toneladas este ano. A empresa produz 150 mil toneladas de filmes flexíveis.
Para Roriz Coelho, a atual política monetária e cambial representa um tiro no pé do próprio governo. "Exportando menos, temos que diluir o custo fixo só no mercado interno", alega o executivo. "Como as vendas estão fracas por causa dos juros altos, somos obrigados a diminuir a produção e aumentar os preços." Desde o início do ano, a Vitopel elevou seus preços em 26%.
São poucos os setores onde as empresas podem adotar estratégias parecidas. A Paramount Lansul, uma das principais indústrias do setor têxtil brasileiro, tem feito "ginástica", nas palavras do seu presidente, o empresário Fuad Mattar, para conseguir manter o volume em dólares das suas exportações, embora receba cada vez menos reais por elas. "É impossível vender mais US$ 50 milhões em produtos similares no mercado interno, que importa cada vez mais produtos asiáticos a preços imbatíveis", diz o empresário, referindo-se ao montante das exportações de 2007,que a empresa espera repetir neste ano.