Título: Brasília desmente vínculo de Celso Amorim com guerrilha
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/08/2008, Internacional, p. A14

Governo diz que nunca houve contato do chanceler com membros das Farc

Tânia Monteiro e Vera Rosa, BRASÍLIA

O Ministério das Relações Exteriores afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que ¿nunca houve qualquer forma de contato direta ou indireta¿, do ministro Celso Amorim ¿com qualquer membro ou representante das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia)¿. Outros funcionários do governo também negaram qualquer ligação com o grupo guerrilheiro.

Acompanhe a repercussão das informações sobre as supostas ligações de membros do governo brasileiro com as Farc

Veja especial que conta a história e traça o perfil da guerrilha colombiana

No Palácio do Planalto, o assunto foi tratado com cautela e o governo evitou pronunciar-se oficialmente a respeito do dossiê publicado pela revista Cambio, da Colômbia, que envolve cinco ministros e altos assessores brasileiros com o grupo guerrilheiro colombiano.

A reportagem cita, entre outros, o chefe de gabinete do governo, Gilberto Carvalho, o assessor de Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, o chanceler Celso Amorim e o ex-ministro e ex-presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) José Dirceu.

Marco Aurélio Garcia disse ontem que ¿não há nenhuma cooperação do governo brasileiro com as Farc¿. O assessor, que está no Paraguai, disse à imprensa local que ¿houve uma certa tentativa de aproximação¿ das Farc com o governo do Brasil, mas insistiu que ela foi rejeitada.

Garcia destacou que, como ele mesmo revelou dois meses atrás, as informações no computador de Raúl Reyes - líder das Farc morto no Equador - o citam de forma irônica, pois ele foi um dos primeiros a rejeitar todo o contato com o grupo guerrilheiro. O assessor lembrou que foi o Partido dos Trabalhadores (PT) que impediu a participação de membros das Farc no Foro de São Paulo, que agrupa várias organizações de esquerda latino-americanas.

Gilberto Carvalho assegurou que ele e o governo têm uma ¿relação zero¿ com as Farc e reiterou que ¿a posição brasileira é claramente contra os seqüestros e os métodos¿ do grupo guerrilheiro. Segundo Carvalho, seu nome é mencionado por causa de um pedido feito ao subsecretário de Direitos Humanos, Perly Cipriano - também citado pela revista -, em favor do ex-padre Antonio Cadena Collazos, conhecido como Oliverio Medina e considerado ¿embaixador¿ das Farc no Brasil.

A deputada petista Erika Kokay, apontada na reportagem como um dos facilitadores de uma atividade política supostamente coordenada com as Farc, negou qualquer envolvimento com o grupo. Mas ela admitiu que colaborou com o processo que permitiu a concessão do status de refugiado a Oliverio Medina, dois anos atrás. ¿Nunca tive qualquer tipo de relação com as Farc e só conheço o padre Oliverio e apoiei seu status de refugiado, pois ele corria risco de morte se fosse repatriado¿, disse Erika.

A divulgação da reportagem em uma revista tida como ligada ao presidente Álvaro Uribe e cuja linha editorial é definida pelo irmão do ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, causou ¿estranheza¿ entre assessores do Planalto. Eles negaram qualquer tipo de envolvimento de seus integrantes com pessoas ligadas às Farc. Mesmo destacando as boas relações entre o Brasil e a Colômbia, membros do governo questionavam o que poderia estar por trás da publicação. Lembravam, por exemplo, que o ministro da Defesa colombiano era contra a participação do Brasil na União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Eles também indagavam por que foi divulgada apenas parte dos e-mails sugerindo o envolvimento de brasileiros e não a totalidade, deixando de lado os que mostravam que o governo não apóia as ações da guerrilha.

Já o secretário especial de Direitos Humanos da Presidência, Paulo Vanucchi, afirmou ontem que a única atuação de sua pasta, em relação a Oliverio Medina, restringiu-se ao atendimento de uma solicitação do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Vanucchi disse, por meio de sua assessoria, que o conselho pediu em 2006 à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência o acompanhamento da situação carcerária de Medina, detido no Presídio da Papuda. A queixa era a de que Medina, com problemas de saúde, não tinha direito a banho de sol e estava detido com presos comuns. O subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Perly Cipriano, foi visitar Medina na Papuda. COM EFE

TROCA DE E-MAILS

Oliverio Medina diz a Raúl Reyes que pode receber a visita de um assessor de Lula, em e-mail de 2006

¿É possível que me visite um assessor especial de Lula chamado Silvino Heck que, com Gilberto Carvalho (chefe de gabinete), foi outro que nos ajudou bastante¿

Edson Albertão (vereador em Guarulhos pelo PSOL) é citado em e-mail de fevereiro de 2004, que dá a entender que ele seria a ponte com o chanceler Celso Amorim

¿Por intermédio do líder do PT, Plínio de Arruda Sampaio, chegamos a Celso Amorim. Plínio mandou dizer a Albertão que o ministro está disposto a nos receber. Que tão logo tenha um espaço em sua agenda nos recebe em Brasília¿

Em um e-mail de 2005, José Luis (contato das Farc no Brasil) menciona José Dirceu

¿Um jovem que se apresentou como Breno Altman (militante do PT) me disse que vinha da parte de José Dirceu e falou que tinham concordado que as relações não deveriam passar pela Secretaria de Relações Internacionais, mas sim pelo ministro, com a representação de Breno¿