Título: Saída de Rachid encerra ciclo de 13 anos na Receita
Autor: Gobetti, Sérgio
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/08/2008, Economia, p. B6

Para o presidente da Unafisco, grupo tinha influência do ex-secretário Everardo Maciel; indicação de Lina Vieira é apoiada pelo sindicato

O afastamento do secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, encerra um longo ciclo de transição na cúpula da equipe econômica que teve início com a posse do atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, e tinha como objetivo desarticular alguns ¿feudos¿ da administração federal. ¿Essa troca é salutar, porque oxigena a administração pública e encerra 13 anos de um mesmo grupo no comando na Receita Federal¿, afirma o presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais (Unafisco), Pedro de la Rue, referindo-se à influência do ex-secretário Everardo Maciel sobre os atuais dirigentes do órgão.

Além de apoiar a saída de Rachid, o sindicato também vê com bons olhos o nome da nova secretária, Lina Maria Vieira, que faz parte da categoria. ¿Essa mudança deve favorecer o diálogo com a categoria¿, opina De la Rue.

Há dois anos, a Unafisco chegou a promover uma consulta entre os auditores para escolher os nomes de uma possível lista tríplice para substituir Rachid, quando se iniciaram os boatos sobre sua queda. Nessa eleição informal, o ex-secretário Osíris Lopes Filho foi o mais votado, e Lina apareceu em 6º lugar, como a mais votada na 4ª região da Receita Federal (Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte).

Na época, Lina comandava o Fisco do Rio Grande do Norte e coordenava o fórum de secretários no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). Foi quando se aproximou do atual secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Machado, que presidia as reuniões e foi responsável agora por sua escolha para o cargo. No início de 2007, meses depois da sua aparição na lista tríplice, ela já havia sido indicada por Machado para a Superintendência da Receita Federal da 4ª Região, justamente onde havia sido eleita pelos colegas.

¿Ela se articula politicamente muito bem e é habilidosa em se aproximar das pessoas¿, revela um antigo colega.

Assessores do governo, entretanto, informam que Lina não era a primeira opção de Mantega e Machado para o cargo. Antes dela, o ministro e seu secretário-executivo pensaram no nome de Valdir Simão, que acompanha Machado desde os tempos em que ele estava na Previdência.

Ex-presidente do INSS, Simão era o preferido de Machado, mas pesou contra sua escolha o fato de não ser originário da carreira dos auditores da Receita, mas sim da Previdência. As carreiras atualmente estão unificadas, mas seus integrantes guardam uma certa rixa corporativa. Para evitar uma reação contrária, a cúpula da Fazenda preferiu um nome mais ¿popular¿, que fosse distante o suficiente do grupo de Everardo, mas gozasse de apoio entre os auditores.

O nome de Simão foi descartado na segunda-feira, e ele foi retransferido ao Ministério da Previdência, onde está cotado para assumir o cargo de secretário-executivo. Apesar de ter ligações com o PT, Machado gosta de se cercar de técnicos, pois precisa deles para administrar a burocracia estatal. Essa tem sido sua característica desde os tempos em que era o braço direito de Mantega no Ministério do Planejamento. Desde então, passou por três pastas e em todas procurou constituir um grupo novo de técnicos de confiança, como Simão e Lina.

Outra característica do secretário-executivo é sua fama de disciplinado, que age em silêncio e de forma cirúrgica. Isso explica o fato de que a mudança na Receita Federal tenha surpreendido até mesmo assessores mais próximos de Mantega. ¿A troca de comando da Receita era uma carta marcada, mas os fatos se sucederam de forma inesperada, que surpreendeu a própria cúpula¿, diz o presidente da Unafisco. Segundo De la Rue, não se deve esperar mudanças profundas na política de tributação ou na linha de atuação da Receita Federal, que deve continuar em busca do crescimento na arrecadação.