Título: Fundos perderam R$ 9,9 bi até junho
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/08/2008, Economia, p. B3
Especialista vê `conflito de gerações¿ no mercado brasileiro: jovens gostam de risco; mais velhos fogem do vaivém
As estatísticas da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid) revelam que o brasileiro está mesmo assustado com as perdas do mercado acionário em 2008. Entre janeiro e o fim de junho, os fundos de ações registravam uma saída líquida (resultado da subtração de aplicações e resgates) de R$ 9,9 bilhões. No total, esse segmento tinha um patrimônio de aproximadamente R$ 170 bilhões ao final de junho.
Se serve de consolo, a maior parte dos saques ocorreu em março, antes, portanto, de a atual tendência negativa começar (em junho). Nos últimos dois meses, aliás, a captação foi positiva em mais de R$ 4,8 bilhão.
Em relação às pessoas físicas habilitadas a negociar ações diretamente na Bovespa (por meio de home broker, por exemplo), não é possível saber se têm conseguido manter o sangue-frio, para ficar no clichê preferido dos analistas em ocasiões como a atual.
¿Estamos em uma fase de transição¿, define o professor Roberto Gonzalez, da Trevisan Escola de Negócios. ¿De um lado, estão os mais jovens, que cresceram sem saber o que é inflação e, por isso, tendem a ser mais arrojados em seus investimentos¿, diz ele. ¿De outro, estão os pais deles, que ainda mantêm a mentalidade presa à renda fixa.¿
O resultado disso, afirma Gonzalez, é que uma parcela dos investidores agüenta bem o tranco das quedas recentes. Outra parte - que tem mais recursos, por causa da fase da vida em que se encontra - ainda corre do mercado acionário quando a maré vira. Para esses, há ainda outro estímulo: a volta da tendência de alta para a taxa básica de juros, que saiu de 11,25% ao ano no fim de 2007 para 13% em junho.
O professor da Trevisan recomenda que, para evitar grandes transtornos e noites mal dormidas, o investidor debutante deve aplicar na bolsa, no máximo, 20% de seu patrimônio. Outra dica diz respeito ao controle dos nervos, mesmo em uma situação positiva do mercado.
¿Tive um aluno que entrou na abertura de capital da Bovespa e me contou que não conseguia trabalhar no dia em que as ações começaram a ser negociadas¿, revela. ¿Não se pode ficar ansioso e com a adrenalina lá em cima por causa da bolsa.¿
Períodos de intenso vaivém, como o atual, dão força a outro clichê dos especialistas: o investimento em ações deve visar ao longo prazo.
¿A mentalidade ao entrar no mercado acionário deve ser a mesma de quando se compra uma casa: não se deve pensar na data de saída do imóvel¿, compara o professor Keyler Carvalho Rocha, da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP). ¿A pessoa não deve ter o compromisso de tirar o dinheiro no curto prazo. Imagine quem precisa vender suas ações em um momento como este.¿