Título: A inflação perde força
Autor: Celso Ming
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/08/2008, Economia, p. B2

Até há duas semanas havia apenas indícios de que a esticada inflacionária perdia força. Agora, os sinais estão mais claros. Ontem, saíram dois números que apontaram o enfraquecimento da inflação. O mais importante deles é o IPCA de julho. O IPCA, você sabe, é a medida da inflação que serve de critério para a definição dos juros básicos (Selic) para efeito de empurrar a inflação para dentro da meta.

O outro foi a primeira prévia do IGP-M de agosto. O IGP-M é mais usado para reajustes no mercado financeiro, aluguéis e tarifas (luz, água e telefone).

O IPCA avançou 0,53% em julho, sensivelmente abaixo do salto dado em junho, de 0,74%. A primeira prévia do IGP-M foi ainda mais contundente porque apontou para uma queda da inflação ou para aquilo que alguns equivocadamente chamam de deflação. O recuo do IGP-M foi mínimo, de apenas 0,1%, mas foi um recuo. Por trás desse esvaziamento está a queda dos preços dos alimentos e das matérias-primas.

O impacto maior acontece no mercado atacadista, cuja participação no IGP-M é de nada menos que 60%. Como o futuro de hoje é o varejo de amanhã, há razões para acreditar em que, já nas próximas semanas, os índices de custo de vida (entre os quais o IPCA) acusarão redução de preços.

O impacto mais importante está na condução da política de juros. A polêmica da hora se trava entre o grupo liderado pelo Ministério da Fazenda e o liderado pelo Banco Central (BC). Para o primeiro, o atual surto inflacionário brasileiro é conseqüência da alta dos preços internacionais dos alimentos e das matérias-primas, o que caracteriza inflação de custos. Para o BC, ele se deve à disparada do consumo acima da capacidade de oferta, o que identifica a inflação de demanda.

A questão não é apenas teórica. Bastaria a queda dos preços internacionais para que a inflação de custos recuasse. Mas o pedaço da inflação de demanda se combate com juros mais altos.

Como de abril para cá o BC aumentou os juros básicos em 1,75 ponto porcentual para enfrentar a inflação de demanda, se a tese do Ministério da Fazenda estiver correta, ele pode ter ido longe demais no aperto monetário e poderia desistir de novas altas ou, ainda, de voltar a baixá-los.

O BC tem dois argumentos para justificar a política. O primeiro é o de que a alta de preços não está restrita aos alimentos, mas se espalha pelo setor de serviços, que nada tem com o mercado de commodities. E o segundo é o de que um eventual exagero na política de juros seria mais fácil de corrigir do que uma grande cochilada no início do processo. Mas não espere que o BC dê o braço a torcer.

De mais a mais, a atual queda dos preços das commodities pode ser apenas um ajuste temporário. É provável que a alta volte algumas curvas adiante, para ficar.