Título: Meta de 4,5% somente em 2010
Autor: Graner, Fabio; Veríssimo, Renata
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/08/2008, Economia, p. B9

Em encontro, Mantega admitiu que trabalha com mesmo cenário de inflação do mercado financeiro

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem a empresários que trabalha com um cenário para a inflação semelhante ao do mercado financeiro, em que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) só voltará ao centro da meta de 4,5% em 2010, segundo informou uma fonte presente ao encontro.

Os números apresentados por Mantega foram os da Pesquisa Focus do Banco Central, que mostra a inflação em 2009 em 5%, ainda acima do alvo central. Apesar de admitir a possibilidade de a inflação prosseguir acima de 4,5%, Mantega teria afirmado que o governo vai buscar ficar mais próximo do centro da meta no ano que vem. A assessoria do ministério da Fazenda negou que o ministro tenha dito que só em 2010 o centro da meta será mirado.

Segundo a mesma fonte, o ministro não perdeu a oportunidade de pedir para que o setor produtivo contenha o ímpeto de remarcação de preços. O pedido foi repetido por três vezes.

Mantega reconheceu que é difícil conter o movimento de remarcações, mas acentuou que é possível compensar a alta de custos por meio de ganhos de produtividade, escala de produção e de aumento nas vendas. Apesar dos apelos, de acordo com o informante, nenhum empresário se manifestou ou assumiu compromisso de não aumentar preços.

Mantega disse que a inflação fez um movimento de ¿corcova¿ e já está saindo do ponto mais alto da curva para começar uma trajetória decrescente, que deve continuar em 2009. ¿Há uma desaceleração da inflação. O pior já passou. Chegamos ao cume da montanha¿, afirmou. Ele destacou as ações do governo para conter a escalada dos preços, como a elevação do superávit primário e a criação do Fundo Soberano do Brasil (FSB). ¿O objetivo do governo é dar a dose certa do remédio porque, se for uma dose excessiva, ela mata o paciente e, se for uma dose menor, ela não cura¿, afirmou em pronunciamento à imprensa, sem direito a perguntas, após a reunião com os empresários, a portas fechadas. Ao ser questionado se o discurso era um recado para o Banco Central, Mantega foi retirado do local pelos seus assessores sem responder.

Ele reforçou que o Brasil tem atravessado a crise com um desempenho satisfatório, apesar de ter passado por um choque forte. O ministro ainda avaliou que está havendo uma reversão na trajetória de crescimento dos preços das commodities. ¿O Brasil tem feito adaptações para evitar que a inflação se alastre¿, disse.

Mantega ressaltou que o Brasil tem tido melhor desempenho inflacionário dentre vários países e é o único entre os que adotam o regime de metas que tem a inflação dentro da margem de tolerância - que vai até 6,5%.

De acordo com relatos de presentes à reunião, o ministro ainda tentou passar uma mensagem de otimismo, destacando que os investimentos nunca estiveram tão fortes no País. Embora a criação do Fundo Soberano do Brasil (FSB) tenha sido anunciada como o tema principal da pauta de debate, Mantega concentrou sua apresentação apenas sobre a conjuntura econômica mundial e brasileira, especialmente da inflação, e não mencionou o FSB.