Título: Trava na economia global
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Fonte: O Estado de São Paulo, 18/08/2008, Notas e Informações, p. A3
A primeira onda foi a da inflação importada, com os preços do petróleo, dos alimentos e de outras matérias-primas superando as piores previsões no mercado internacional e pondo em risco a estabilidade brasileira. O Brasil enfrentou o choque sem danos muito graves, até o momento, e parece avançar para uma zona de segurança. O País deve aprontar-se, agora, para resistir à segunda onda: as maiores potências capitalistas - Estados Unidos, União Européia e Japão - estão enfraquecidas e muito perto de uma recessão. Na zona do euro, a produção no segundo trimestre foi 0,2% menor que no primeiro. Encolheu pela primeira vez desde o lançamento da moeda comum, na década passada. No Japão, o PIB diminuiu 0,6% no mesmo período. Nos Estados Unidos, aumentou pouco menos de 0,5% - ritmo equivalente a uma taxa anualizada de 1,9%. Esses países, juntos, forneceram cerca de 65% do produto global, em 2006, de acordo com os cálculos convencionais. Pelo critério de paridade do poder de compra (PPP) seu peso foi menor, mas nada desprezível: cerca de 48%, de acordo com os números do Banco Mundial.
O enfraquecimento econômico do mundo rico é conseqüência de vários fatores combinados. A crise iniciada com o estouro da bolha imobiliária dominou as atenções dos economistas durante vários meses, desde julho do ano passado. Bancos de todos os tamanhos, incluídos alguns dos maiores do mundo, tiveram de contabilizar perdas enormes. Alguns só não quebraram porque foram socorridos pelos bancos centrais. Para se ajustar, adotaram critérios mais duros para continuar emprestando dinheiro e o crédito ficou mais escasso e mais caro.
Nos Estados Unidos, famílias endividadas perderam casas. Quem escapou da execução das dívidas também ficou em situação muito difícil. O desastre só não foi mais grave porque dinheiro do Tesouro foi distribuído aos contribuintes para estimular o consumo. Mas o efeito desse remédio foi limitado, porque a alta de preços dos combustíveis e dos alimentos pressionou o orçamento dos consumidores.
Os últimos dados da inflação americana, divulgados pelo Departamento do Trabalho, exibem um cenário preocupante: em julho, o nível de preços foi 5,6% mais alto que o de um ano antes, um recorde em 17 anos. Diante dos sinais de inflação cada vez mais alta e de economia enfraquecida, o Fed, o banco central americano, está diante de uma escolha difícil. Até agora preferiu manter os juros baixos, para limitar a extensão do estrago causado pela crise das hipotecas imobiliárias.
Também na Europa a crise financeira e a inflação elevada causaram estragos. Como o Banco Central Europeu deu prioridade à política antiinflacionária, os juros não caíram como nos Estados Unidos, embora o estouro da bolha imobiliária tenha causado estragos em vários países, incluídos o Reino Unido e a Espanha. Também o Banco da Inglaterra, o banco central do país, preferiu manter uma política mais severa que a do Fed. No segundo trimestre, a economia do Reino Unido cresceu apenas 0,2%. ¿O ajuste da economia britânica aos preços altos das commodities e ao custo mais realista do crédito vai ser doloroso¿, disse na quarta-feira o presidente do banco, Mervyn King.
A maior exibição de vigor continua sendo proporcionada pelas economias emergentes. A produção chinesa ainda cresce em ritmo próximo de 10% ao ano, mas, com a inflação na vizinhança de 9%, o governo terá provavelmente de apertar sua política monetária. A Índia também enfrenta pressões inflacionárias e fiscais e pode ter de reduzir seu ritmo de atividade.
No Brasil, tem havido sinais de recuo da inflação desde o mês passado. Mas dificilmente o Banco Central afrouxará a política de juros antes de aparecerem sinais mais seguros de acomodação dos preços, até porque o risco de repasses de custos não está superado. A exportação continua crescendo, mas a importação avança com velocidade maior. O crescimento econômico em 2008 - e quase com certeza em 2009 - dependerá principalmente do mercado interno. Mas uma piora nas condições internacionais poderá afetar mais seriamente o comércio externo e isso terá conseqüências na produção. Não é hora de pensar no Brasil como ilha de prosperidade. Pela primeira vez, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve enfrentar um quadro internacional desfavorável.