Título: Crise na Bolívia põe em risco produção de gás
Autor: Pamplona, Nicola
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/08/2008, Economia, p. B8
Para especialistas, Brasil deve ser afetado em médio e longo prazos
Nicola Pamplona
Embora não acreditem em interrupção no fornecimento de gás para o Brasil, especialistas em energia e política internacional vêem no recrudescimento da crise boliviana riscos de médio e longo prazos para o mercado brasileiro de gás natural. A avaliação de fontes consultadas pelo Estado é que o clima instável no país vizinho não é propício para a retomada dos investimentos necessários para manter os níveis atuais de produção de gás.
No futuro, dizem, tal cenário pode provocar uma redução das exportações do combustível para o Brasil, uma vez que o abastecimento do crescente mercado interno é prioridade. ¿Não vejo risco de curto prazo, mas há o fantasma do crescimento do mercado interno, que gera ameaça de médio prazo. Isso pode comprometer o cumprimento total do contrato com o Brasil¿, diz Pedro Camarota, da consultoria Gas Energy.
Erasto Almeida, da consultoria especializada em risco político Eurasia Group, lembra que a Bolívia já não cumpre atualmente o contrato total de exportação com a Argentina, limitando-se a enviar algo entre 1,5 milhão e 2 milhões de metros cúbicos por dia ao país. ¿O problema é que faltam regras claras detalhando o novo modelo regulatório para o setor e ainda há muita incerteza política, o que faz as empresas relutarem em investir¿, aponta.
Na semana passada, o presidente Evo Morales comemorou a vitória em referendo que discutia a sua permanência no governo, assim como a dos prefeitos (governadores) das províncias bolivianas. No entanto, alguns dos principais prefeitos de oposição também saíram vitoriosos, acumulando cacife político para tocar seus projetos de autonomia em relação ao governo central.
Evo, repetindo estratégia usada sempre que a crise se agrava, apelou para declarações nacionalistas, ameaçando expulsar as companhias que não investirem no aumento da produção de gás. ¿Se ele ameaça as companhias estrangeiras em todas os momentos em que se sente ameaçado, qual segurança jurídica pode oferecer ao investidor estrangeiro?¿, questiona o analista político Thiago de Aragão, da Arko Advice.
Ao contrário dos outros entrevistados, ele vê algum risco de curto prazo com a radicalização dos movimentos separatistas no país. ¿Conversei com líderes da oposição que admitem que, se as coisas engrossarem, podem ocorrer ataques clandestinos ao fornecimento de gás, com o objetivo de chamar a atenção da comunidade internacional.¿
Para Aragão, nem governo nem oposição estão satisfeitos com a atuação do Brasil diante da crise política local. Em dezembro do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em La Paz para anunciar investimentos entre US$ 750 milhões e US$ 1 bilhão no desenvolvimento de projetos de produção de gás na Bolívia, em visita que foi encarada pela oposição como uma manifestação de apoio a Evo.
FALTA DE ATENÇÃO
La Paz, por sua vez, cobra apoio mais firme do governo brasileiro. O analista da Arko acha que o Itamaraty não está acompanhando a situação no país vizinho com a devida atenção. ¿O Brasil deveria estar com metade do Itamaraty deslocado para acompanhar a Bolívia e pensar em alternativas para o suprimento de gás ou para o pior cenário possível, que seria uma guerra civil.¿
O Brasil hoje tem grande dependência do gás boliviano, que responde por cerca de 60% do abastecimento do Estado de São Paulo e 100% dos Estados da Região Sul do País. São 30 milhões de metros cúbicos por dia que não encontram substitutos em curto prazo. Mesmo que os piores cenários previstos não se concretizem, o contrato não pode ser cumprido em sua totalidade caso não haja novos investimentos.
¿Não vejo hoje as empresas com a menor disposição de investir. As ameaças de Evo são apenas jogo de cena, mas não contribuem em nada para o desenvolvimento do país¿, disse Camarota, que ocupou cargo na filial boliviana da espanhola Repsol.