Título: Agricultor paulista desenvolve novo perfil
Autor: Tomazela, José Maria
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/08/2008, Economia, p. B13
Profissionalização do setor exige que se acompanhe a plantação de perto
O produtor rural Ariovaldo Fellet é de família tradicional de Piracicaba, no interior paulista, mas agora é difícil encontrá-lo na cidade. Ele passa os dias na fazenda da pequena Itaberá, no sudoeste paulista. Ergueu sua segunda residência no meio das plantações. ¿Já é praticamente a nossa casa principal, pois estamos sempre aqui¿, diz a esposa Fernanda. A casa é ampla, com piscina, churrasqueira, jardins, conforto e segurança. Agora, período de férias escolares, toda a família está no campo. ¿Recebi até o título de cidadão itaberaense¿, conta Fellet.
Ele se enquadra no novo perfil do agricultor paulista, segundo o agrônomo Vandir Daniel da Silva, da Secretaria de Agricultura. ¿Antes, ele plantava e ia pescar no Mato Grosso, hoje o dia-a-dia é no meio da plantação¿, resume. Isso se deve, segundo Silva, à profissionalização do setor e ao alto valor da produção. ¿Produzir ficou muito caro e, se o agricultor não acompanhar de perto, o risco de perda é grande.¿
A reciclagem e troca de experiências passou a ser uma rotina. Fellet faz parte do G 10, um grupo de produtores do sudoeste que se reúne mensalmente para discutir o mercado e trocar informações. Num dos encontros ele soube que um colega usava aviões para pulverizar as lavouras de milho contra pragas e fungos. ¿Na hora achei exagero, pois nunca pulverizamos o milho, mas quando estudei melhor, vi que o resultado compensava e passei a fazer o mesmo.'
A produtividade do milho na região, de 6,6 mil kg/ha, supera em 55% a média nacional. Os produtores promovem dias de campo e trazem especialistas para dar palestras aos funcionários, estes cada vez mais qualificados. Só a Lagoa Bonita, fazenda de Fellet, faz dois eventos por ano, voltados para soja e trigo. O grande capital investido em máquinas e equipamentos, a valorização das terras e a disparada no preço dos insumos preocupam os agricultores. ¿O Brasil ficou muito dependente da importação dos componentes de fertilizantes, defensivos e adubos, que são derivados do petróleo¿, critica o produtor Nelson Schreiner, da Estância São Carlos.
Se o governo não buscar uma solução para regular esse mercado, ele acredita que todo o esforço para produzir mais e a custo menor será em vão. ¿O produtor não falha e está sempre se aprimorando, mas se o custo ultrapassar o valor de venda, aí complica tudo.¿ Ele diz que há apenas dois meses pagou R$ 600 pela tonelada de adubo. ¿O preço, agora, é R$ 950.¿ Quem não comprou com antecedência, como ele fez, terá dificuldade para fazer a lavoura de verão, a partir de setembro.
Para o produtor Nicolau Ghirghi Filho, da fazenda Águas Claras, na base do encarecimento da produção está o preço do óleo diesel, usado para movimentar máquinas, caminhões, secadores, bombas de irrigação e outros equipamentos. ¿Na safra passada, trabalhamos com o diesel a R$ 1,70 o litro. Nesta, está em R$ 2,10.¿ A alta no preço do adubo foi de 100% entre uma safra e outra. O valor de arrendamento da terra subiu 30%. ¿Se o preço dos grãos recuar, a margem vai ficar muito apertada.¿ A expectativa de uma grande safra já fez o preço do trigo cair de R$ 750 para R$ 620 a tonelada nas últimas semanas. ¿O pior é que a queda não chega até o consumidor.¿