Título: Missão da OEA é expulsa
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/09/2009, Internacional, p. A11
Governo de facto diz que instituição não tinha convite para entrar no país
governo de facto de Honduras entrou em choque com a comunidade internacional, ontem, ao deportar cinco representantes da Organização dos Estados Americanos (OEA) que tentavam ingressar no país. Quatro dos diplomatas - dois espanhóis, um americano e um colombiano - seguiram para San José, na Costa Rica, no mesmo avião em que chegaram a Tegucigalpa. O quinto membro da missão foi conduzido em um carro da polícia, acompanhado por um veículo da embaixada dos Estados Unidos, a um hotel da cidade. Ele deve embarcar hoje para o Chile.
"Os diplomatas da OEA não tinham convite para entrar no país. O diplomata chileno não foi preso", afirmou ao Estado o comissário Orlin Cerrato Cruz, diretor de Relações Públicas da Polícia Nacional.
Em apenas três dias, essa foi a terceira afronta do governo de facto a uma tentativa da OEA e de seus países-membros de intermediar uma solução pacífica para o conflito hondurenho. Micheletti anunciara, na quinta-feira, que não receberia uma missão da OEA - em especial, o seu secretário-geral, José Miguel Insulza, considerado persona non grata.
No dia seguinte, cancelara a vinda do presidente da Costa Rica, Oscar Árias, e do vice-presidente do Panamá, Juan Carlos Varela, convidados na véspera.
O enfrentamento do presidente de facto com a OEA se dá no momento em que a tensão em Honduras tende a escapar do controle. Para hoje, está prevista uma manifestação convocada por Manuel Zelaya, em seu abrigo na embaixada brasileira, cujo objetivo final será derrubar o governo de facto. Um forte aparato de repressão começou a ser montado ontem, com barreiras em quatro rodovias de acesso a Tegucigalpa.
"Estamos preparados para tomar medidas dissuasivas contra atos de violência, usando gás lacrimogêneo e jatos d"água para dispersar os manifestantes, se for preciso evitar ações letais", afirmou Cerrato, coerente com o argumento do governo de que a violência tem sido desencadeada por seguidores de Zelaya. "O governo golpista quer impedir a OEA de observar a repressão que se dará amanhã (hoje) contra a resistência", rebateu Andres Pavon, presidente do Comitê para a Defesa dos Direitos Humanos.
O nível de violência entre os dois polos verificado até o último sábado foi registrado em dois velórios que se deram ontem em Tegucigalpa. Os enterros devem ocorrer hoje. Um dos diretores da Universidade Tecnológica de Honduras, Marcos Canales, foi assassinado por dois ocupantes de uma motocicleta, no sábado. Segundo a Polícia Nacional, os criminosos fariam parte de grupos de motociclistas favoráveis a Zelaya, que circulam armados pela cidade desde a semana passada.
No Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Bebidas e Similares, o velório da estudante Wendy Elizabeth Ávila, de 24 anos, tornou-se foco de comoção dos zelaístas. Asmática, Wendy faleceu no sábado por complicações respiratórias provocadas pela aspiração de gás lacrimogêneo, lançado por policiais e soldados do Exército contra a embaixada brasileira no dia 22. Ela participava de manifestações pró-Zelaya do lado de fora do prédio.
O próprio movimento em favor de Zelaya, chamado no país de "resistência", reconhece que a violência pode crescer a partir de hoje. Mas seus líderes advertem que uma repressão dura poderá precipitar a queda do governo de facto. As forças de segurança, entretanto, preocupam-se com provocações que possam vir dos próprios manifestantes zelaístas.
Segundo Carlos Zelaya, ex-assessor do governo do presidente, as vendas de armas leves e de fuzis de uso reservado de forças militares, como o AK-47, aumentaram nos últimos anos. Estima-se que haja 300 mil pistolas em poder de civis.
A preocupação com as armas disponíveis para a população também preocupa Cerrato, que trabalha com informações sobre recentes ingressos ao país de armas enviadas pela Venezuela. "Isso não quer dizer que haja uma frente armada e organizada. Mas significa que há grande número de armas disponíveis", resumiu Carlos Zelaya.