Título: Pressão interna é melhor arma contra o regime
Autor: Simon, Roberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/09/2009, Internaconal, p. A20
A disputa política no Irã está longe de terminar. E corremos o perigo de fortalecer o lado errado. As democracias do mundo não podem garantir uma vitória do movimento verde dentro do Irã. Mas que, pelo menos, não o abandonemos em favor de conversações nucleares ardilosas com aqueles que negam o Holocausto.
Sejamos claros: as pessoas que mudarão o Irã para melhor são os próprios iranianos. O discurso de um presidente americano na Assembleia-Geral das Nações Unidas em Nova York não conseguirá isso. As conversações europeias e sanções também não conseguirão. Bombardeios israelenses contra as usinas nucleares iranianas certamente também não. Mas o povo iraniano pode.
E é isso que milhões de iranianos propuseram-se a fazer nas manifestações em massa este verão e é isso que alguns deles ainda vêm tentando, apesar dos espancamentos, assassinatos, das torturas, abusos, da prisão de milhares de ativistas e do grotesco julgamento de líderes reformistas. Existe um limite bem demarcado para o que as democracias e os democratas fora do Irã podem fazer para ajudar diretamente o "movimento verde" do país, mas é imperativo que não se faça nada que torne ainda mais difícil a sua luta por mudanças pacíficas.
O presidente americano, Barack Obama, agiu corretamente ao instruir seus assessores para que negociassem a questão nuclear "sem precondições". Mas as potências europeias vêm negociando com Teerã há anos e não chegaram a nenhum lugar. Ao mesmo tempo que dá falsas esperanças com suas táticas de negociação, a República Islâmica continua aproximando-se da bomba atômica.
As negociações devem continuar, mas para conseguir mais algumas promessas evasivas do Irã de que vai refrear suas ambições nucleares, EUA e Europa não devem fazer nada que possa legitimar um presidente eleito de maneira fraudulenta que, nas celebrações do Dia de Jerusalém, na semana passada, afirmou que "o pretexto" para a criação de Israel, o Holocausto, "é falso, é uma mentira sustentada por uma afirmação fictícia e improvável".
Um exemplo perfeito de como as democracias não devem agir foi o que fez a Nokia Siemens Networks, joint-venture formada no ano passado entre Siemens e Nokia. A empresa vendeu ao governo iraniano um sofisticado sistema com o qual eles podem monitorar a internet, incluindo e-mails, chamadas telefônicas via internet e sites de relacionamento como o Facebook e o Twitter, bastante usados pelos manifestantes iranianos. Na política do poder popular isso equivale a vender tanques ou gás venenoso a um ditador. Portanto, claramente, a Siemens, empresa alemã que, na sua história, usou o trabalho escravo durante o Terceiro Reich, vendeu a um presidente que nega o Holocausto e que diz que Israel deve ser riscado do mapa os instrumentos com os quais ele pode perseguir os jovens iranianos que arriscam suas vidas pela liberdade. Isso é algo que jamais deveria ocorrer novamente.
Analistas do Irã às vezes usam a imagem de uma corrida entre dois relógios: o relógio nuclear e o da democracia. Como sugere o recente anúncio de mais uma usina nuclear subterrânea, o tique-taque do relógio nuclear iraniano está mais rápido do que muitos previam. Mas a população iraniana agora acionou o relógio da democracia que bate de uma maneira que muitos diplomatas ocidentais nunca acreditaram que o fariam. Milhares de partidários da oposição foram de novo às ruas nesse mesmo Dia de Jerusalém, junto com os três mais influentes líderes reformistas ainda em liberdade. E mais protestos são esperados com a reabertura das universidades.
A expressão "relógio da democracia" talvez seja errônea. Vai demorar para o Irã tornar-se uma democracia no estilo ocidental. Contudo, o que ainda é possível é uma combinação de reforma e revolução - o que eu chamei de "refolução" - que vai consolidar os elementos constitucionais republicanos no estranho sistema político híbrido da República Islâmica e enfraquecer os elementos revolucionários islâmicos.
Existe, eu repito, um limite bem demarcado para o que as democracias - especialmente EUA e Grã-Bretanha - podem fazer diretamente para promover mudanças políticas no Irã. É mais importante e melhor atuar indiretamente, como fez o governo britânico quando financiou um canal persa e um serviço de internet excelentes na BBC, que, em menos de um ano, tornou-se uma fonte de notícias confiável e indispensável para os iranianos.
Mas o apoio direto aos opositores por parte de Washington ou Londres só vai dar credibilidade às alegações feitas pelo campo de Ahmadinejad de que os reformistas e o movimento verde são instrumentos de um complô do grande satã (EUA) e do pequeno satã (Grã-Bretanha) - alegações que têm alguma repercussão com a opinião pública, em parte porque houve de fato um complô anglo-americano para derrubar o premiê iraniano Mohammad Mossadeq, há 50 anos. Obama não se envolveu muito com os protestos no Irã, mas na quarta-feira falou na ONU dos "direitos dos povos em todas as partes do mundo de determinar o seu próprio destino".
Talvez, dentro de um ano, tenhamos de reconhecer que a "refolução" no Irã foi reprimida de fato. Nesse caso, teremos que lidar da melhor maneira possível - por meio da negociação, pressão ou contenção - com Ahmadinejad e um regime revolucionário islâmico. Mas essa hora ainda não chegou. Os protestos dentro do Irã estão longe de acabar. O resultado dessas manifestação não depende de nós, mas, pelo menos, não devemos fazer nada que ajude o campo errado a vencer.
*Timothy Garton Ash é professor de estudos europeus na Universidade Oxford e membro da Hoover Institution COMENTÁRIOS