Título: Política do BNDES é estimular, não dirigir
Autor: Friedlander, David ; Tereza, Irany
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/09/2009, Economia, p. B4

Para executivo, papel do BNDES é dar apoio às empresas privadas, nacionais ou estrangeiras, que investem no País Luciano Coutinho: presidente do BNDES

Um dos idealizadores da política industrial do governo Lula, anunciada no ano passado e logo atropelada pela crise, o presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, considera natural que a nova ordem econômica mundial tenha acelerado compras de peso em setores como o de carnes e de papel e celulose. Outros, como o segmento siderúrgico, resistem ao movimento de concentração de mercado. O banco observa.

Orientações existem, reconhece Coutinho. Mas atuação efetiva, somente como apoiador. "Se o controlador privado não quer fazer, se não se mexe, não podemos fazer nada", diz o executivo, que não vê restrições à liderança de empresas estrangeiras nos processos de consolidação, desde que concordem em abrir capital no Brasil. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Em que setores está havendo consolidação e onde esse processo ainda se dará?

São os setores explicitados na Política de Desenvolvimento Produtivo. Mais os setores ligados a commodities, onde o Brasil é competitivo. E, obviamente, onde exista economia de escala, não só no nível de produção, mas principalmente no nível da empresa. Esse é um processo que não se pode fabricar ou forçar, de maneira discricionária. À pergunta de onde deverá acontecer, não tenho como responder. Depende da espontânea iniciativa de lideranças privadas.

O BNDES não é o indutor desse processo?

No sentido de oferecer condições para quem tiver liderança e competência para fazer, é indutor. No sentido de que vai, digamos assim, ultrapassar o limite e condicionar ou direcionar o setor privado, não.

Mas não é o banco que procura as empresas de setores estratégicos?

Não. Não vamos chegar dizendo: "Você tem de fazer isso". O que temos de entender é que esse processo, em larga medida, é uma projeção natural do desenvolvimento de setores onde empresas exportam, ao se tornarem exportadoras eficientes começam a montar operações no exterior e em geral já conhecem os mercados ou já têm parcerias no exterior. Não é um movimento forçado, é uma coisa que resulta de um processo de expansão. Todas as economias desenvolvidas têm empresas internacionais.

As chamadas campeãs nacionais?

Não, as transnacionais, antes chamadas multinacionais. Esse movimento depende de condições de competência, de superioridade tecnológica, de vantagens competitivas de algumas empresas e setores. Isso explica que determinadas economias gerem movimentos de internacionalização nas empresas. Nos anos 50 e 60, houve movimento de internacionalização maciça de empresas americanas, que gerou reação contrária na Europa. Nos anos 60 e 70, foi a internacionalização de empresas europeias, reagindo à invasão americana.

É sempre um movimento de Estado, no fim das contas?

Foram movimentos induzidos. Depois vem o movimento japonês, nos anos 70 e 80, que começa com a expansão japonesa para o mercado americano, a emergência de grandes marcas na eletrônica de consumo, sob a liderança da Sony. Nos anos 90, aparecem os coreanos. Era uma economia que, nos anos 80, estava aquém do Brasil. Mais recentemente, nesta década, começa a haver movimento de internacionalização de empresas indianas e chinesas. E o Brasil, relativamente ao tamanho de sua economia, tem muito pouca empresa internacional.

E por que a resistência em falar sobre a indução do Estado brasileiro neste processo?

Talvez em outras situações a política de Estado seja mais deliberadamente orquestrada. No nosso caso, não. Existe o estímulo, mas há certa preocupação de não produzir uma internacionalização artificial, não sustentável. Tem de estar baseada em competência reconhecida, revelada. Temos a possibilidade de estar nesse estágio. Nesse sentido, ao dar condições para que aconteça, é uma indução. O processo talvez demorasse mais ou fosse mais difícil sem as condições de apoio para isso. É importante não ficar mal entendido que este modelo seja uma volta ao modelo estatizante. Não é isso, é uma visão nova, com respaldo do próprio mercado.

Mas não é de agora que o governo faz estudos sobre a necessidade de consolidação de alguns setores, como o da petroquímica.

É verdade. A petroquímica era um setor tripartite, muito pulverizado. Veja bem, quando a situação brasileira, de configuração fragmentada, contrasta de forma muito flagrante com o padrão internacional, que é de grande empresa, continental ou global, a percepção desse contraste faz com que existam proposições nesse sentido. Mas, daí a dizer: "Vou consolidar na marra", não pode. Talvez num regime autoritário. Mas nós queremos que seja um movimento cuja liderança venha do setor privado, com estímulo do governo.

E em que setores o Brasil está na contramão global? Siderurgia? Petroquímica?

Na petroquímica, houve um movimento de consolidação até anterior à minha presença no BNDES. Na siderurgia, há dificuldades. Acho problemático, por exemplo, a Vale virar grande siderurgista, porque iria bater de frente com todos os seus clientes. Se olhar o quadro mundial da siderurgia, com a consolidação muito forte que aconteceu nos anos 90, o Brasil está... Mas daí a querer fabricar isso, aí não dá, não tem como fazer. Existe este realismo e o reconhecimento.

Mas o banco é sócio de diversas empresas. Como acionista, também é agente desse processo.

O banco participa do bloco de controle de poucas empresas. E, em geral, participa de forma minoritária e não tem o comando. Portanto, o que pode fazer é estimular. Não só o BNDES, mas o sistema bancário. Banco de investimento é louco para fazer fusão e aquisição. Todos os principais bancos de investimento operam no mercado brasileiro e estão induzindo esses movimentos. Falam da possibilidade de empresas de médio porte brasileiras estudarem aquisições lá fora. Isso não somos nós que estamos inventando, é uma coisa natural do desenvolvimento e da competência do sistema empresarial brasileiro.

E se o banco sentir que há necessidade, mas o setor não se movimenta, tem como acelerar essa consolidação?

Se o controlador privado não quer fazer, se não se mexe, não podemos fazer nada.

E, agora, esse movimento está acontecendo por causa da crise, como no setor de carnes e no de papel e celulose?

É. Por condições diferentes, mas por causa da crise. Isso é natural, em todas as crises existem desvalorizações fortes de ativo. E quando os preços caem muito estes ativos se tornam atraentes. Não se tem no período recente nenhum caso não explicável por condições de mercado. O que existe é mais uma política de estímulo e apoio do que uma política dirigista. Uma política que se faz na liderança e na iniciativa do setor privado. Por isso é diferente do passado.

E, se houvesse um grupo estrangeiro liderando o processo de consolidação de algum setor, o BNDES apoiaria?

Aí depende muito. Primeiro, há um problema com empresa estrangeira que, em geral, não é de capital aberto aqui. A BNDESPar pode entrar em empresa de capital fechado com o compromisso de ela abrir capital. Tem sido uma grande indutora de abertura de capital das empresas. E aqui é indutora mesmo: a exigência para entrar é de abrir capital, porque não faz sentido ficar congelado num veículo fechado e líquido. Tem que haver uma expectativa de sair, via mercado, mais adiante. A empresa estrangeira teria de estar listada no Brasil. Mas isso é um bicho raro.

Em geral, empresa estrangeira tem capital aberto lá fora.

Não temos nada contra. O banco financia a empresa estrangeira que investe no País, cria empregos e produz aqui. Financiamos tecnologia, damos dinheiro barato, estimulamos melhora da qualidade das atividades tecnológicas no País, apoiamos as exportações. Agora, para botar capital lá dentro e virar sócio, teria de ter condições de liquidez especiais. Aí é natural não existirem casos. Mas isso não é posição fechada ao capital estrangeiro.

Seria esse então o único empecilho? Com capital aberto aqui, entre aspas nacional, tudo bem?

A empresa estando aqui é nacional com capital estrangeiro. Pela Constituição, não se pode discriminar. Temos uma agenda muito positiva com empresas estrangeiras.

E o lado negativo da consolidação, relativo ao mercado doméstico, ao consumidor, ao usuário e ao fornecedor num mercado dominado por poucos grandes públicos?

Prezo muito a concorrência. Mas commodity tem preço fixado no mercado internacional, não é formado no mercado doméstico. O Brasil é competitivo em commodities e é principalmente por aí que vem ocorrendo a consolidação. Isso não deve nos absolver de olhar, em todos os segmentos de mercado, se existe excessiva concentração. O sistema brasileiro de defesa da concorrência é que tem de atuar. E tem de remediar essas situações, como em todo o mundo. Longe de mim querer fazer isso em detrimento do consumidor brasileiro.