Título: Tesouro não vê disparada da inflação
Autor: Simão, Edna
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/09/2009, Economia, p. B3

Secretário rebate relatório do BC, que elevou previsão para o IPCA em 2010 por causa da alta dos gastos públicos

O forte aumento dos gastos públicos para impedir que o crescimento econômico despencasse em um ano de crise internacional não deve provocar uma disparada da inflação do próximo ano, segundo avaliação do secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin. Ele afirmou ontem que o impulso fiscal previsto para 2010 é "adequado" e "não causa inflação".

A declaração de Augustin foi uma resposta direta ao relatório trimestral de inflação, divulgado na semana passada pelo Banco Central, que apontou o aumento dos gastos do governo, neste ano, como um dos principais risco de aumento da inflação em 2010.

No documento, o BC aumentou a previsão de inflação do próximo ano de 3,9% para 4,4%. Os técnicos chegaram até a modificar os parâmetros do modelo para o cálculo da inflação de forma a conseguir captar com mais precisão o efeito do aumento de gastos na dinâmica dos preços.

De acordo com os dados divulgados ontem pelo Tesouro, as despesas com pessoal totalizaram R$ 97,934 bilhões de janeiro a agosto deste ano, um aumento de 19,2% em relação a 2008.

Entretanto, o investimento, fundamental para garantir o crescimento econômico no longo prazo, não deslanchou.

Os investimentos do Projeto Piloto de Investimentos (PPI) - que podem ser abatidos da meta de superávit primário - atingiram R$ 5,9 bilhões de janeiro a agosto, valor 41% maior do que o verificado em igual período de 2008.

O investimento total, no acumulado deste ano, mostra, porém, desaceleração no ritmo de crescimento. De janeiro a agosto, a expansão foi de 9%, enquanto de janeiro a julho o crescimento era de 17%.

Para agravar a situação, dados mostram ainda que as receitas líquidas recuaram 0,4%, acumulando R$ 379,966 bilhões de janeiro a agosto deste ano.

Apesar de afirmar que o aumento de gastos não deve causar pressões inflacionárias no próximo ano, Augustin afirmou que respeita os relatórios críticos à política fiscal do governo, inclusive do BC.

"Temos tranquilidade de que o impulso fiscal foi dado no momento adequado", destacou o secretário.

CRÍTICAS

A disparada dos gastos num cenário de queda da arrecadação é o que tem provocado críticas de analistas quanto à sustentabilidade das finanças públicas brasileiras.

Augustin explicou, no entanto, que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por medidas como a reestruturação das carreiras dos servidores públicos em áreas que considerava importantes.

"A reestruturação foi necessária e permite o bom funcionamento da máquina pública. Mas a reestruturação é compatível com as contas fiscais", ponderou.

Ele destacou ainda que algumas despesas que subiram neste ano, como as transferências a municípios - cerca de R$ 2 bilhões - não devem se repetir no próximo ano, com a recuperação da economia.

COLABORARAM FABIO GRANER e ADRIANA FERNANDES