Título: Número de transplante cresce 24% em 6 meses
Autor: Mendes, Vannildo
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/09/2009, Vida&, p. A26
Rim foi o órgão mais transplantado; fila de espera, porém, caiu só 1%
Os transplantes de órgãos no País com doador falecido subiram 24,3% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2008, segundo balanço divulgado ontem pelo Ministério da Saúde. Foram 2.099 cirurgias realizadas neste ano, contra 1.688 em 2008. Os órgãos mais transplantados foram rim, com 30,28% do total, e fígado, com 23,17%. Em contrapartida, houve queda de 15,38% nos transplantes de pulmão, de 2,33% no de córneas e de 2,04% no de coração.
Com 988 transplantes realizados - cerca de 50% mais do que no primeiro semestre de 2008 -, o Estado de São Paulo registrou o maior índice de crescimento do Brasil e puxou a estatística para cima.
A experiência desenvolvida nos hospitais paulistas terá pontos incorporados no novo regulamento brasileiro de doações de órgãos, que será anunciado em outubro pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, depois de ter sido submetido a audiência pública.
O que mais chamou a atenção do governo federal foi a alta performance das coordenações de transplantes criadas dentro de cada hospital paulista, medida que agilizou o processo de doação - do diagnóstico da morte encefálica à preservação dos órgãos transplantáveis e os trâmites legais (mais informações nesta pág.). "Esses profissionais conhecem a rotina interna do hospital, as pessoas e a estrutura disponível", explicou a coordenadora do Sistema Nacional de Transplantes, Rosane Nothen. "Essa conjunção de esforços se mostrou muito eficiente e vamos expandir esse modelo para outras partes do País."
Rosana atribuiu o crescimento da taxa de transplantes ao amadurecimento do sistema, às campanhas de estímulo e ao gerenciamento local cada vez melhor na maioria dos Estados. A situação geral, porém, ainda não é boa: existem 63,8 mil pessoas na fila à espera de um órgão, muitas delas à beira da morte. A redução da fila no período foi de apenas 1%.
"Há problemas sérios a resolver, como a fragilidade ainda existente no diagnóstico precoce de morte encefálica e a falta de expertise em vários Estados", reconheceu Rosana.
A atendente de call center Rosângela da Silva, de 27 anos, mãe de Kayque, de 1 ano e meio, teve sorte. Seu bebê, transplantado há nove meses, ficou apenas quatro na fila de espera. "É uma angústia muito grande não saber o que vai acontecer com o seu filho. Infelizmente tem muita família que não chega a tempo de decidir se vai doar os órgãos", lamenta.
SEM TRANSPLANTE
Em seis Estados (Acre, Amapá, Paraíba, Rondônia, Roraima e Tocantins) não houve sequer um transplante desde 2008. Por isso o governo vai lançar uma campanha em todo o País para estimular a doação. "A vida é feita de conversas. Basta uma para salvar vidas", diz o lema da campanha.
Embora 60% dos brasileiros sejam favoráveis à doação de órgãos, conforme pesquisa do ministério, a taxa efetiva é de apenas 8,6 por grupo de 1 milhão de habitantes - um quarto da taxa da Espanha (35 por 1 milhão). "A fila é o nosso grande desafio e temos um longo caminho a percorrer", afirmou Rosana.
Para a dona de casa Solange Manoel, de 31 anos, mãe de Quesia dos Santos, de 9 anos, as pessoas só tomam consciência da importância da doação de órgãos quando alguém próximo precisa de um doador.
Quesia teve hepatite decorrente de rubéola e há cerca de três meses recebeu um fígado. "É preciso fazer tudo o que for possível para incentivar a doação. As pessoas têm de saber que podem salvar muitas vidas", disse a mãe.