Título: Cúpula foi a consagração do G-20, diz Lula
Autor: Mello, Patricia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/09/2009, Economia, p. B2

Presidente diz de que foro é o mais importante da economia mundial

A cúpula de Pittsburgh foi a "consagração" do G-20 como o principal foro mundial de coordenação da economia internacional, disse ontem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Saio desta reunião com convicção de que o G-20 tem um papel excepcional na nova ordem mundial", disse Lula em entrevista no encerramento da cúpula de chefes de Estado e ministros da Fazenda.

"Não significa que vai acabar o G-8 e o G-14, mas para economia internacional, o G-20 é o mais importante". Segundo o presidente, a crise permitiu que os países ricos "arejassem a cabeça" e, "mais humildes", aceitassem mudanças.

Segundo Lula, os governantes dos países ricos fizeram mudanças que não fariam se não houvesse a crise. "A crise econômica permitiu que as pessoas arejassem a cabeça e ninguém mais se acha dono da verdade", disse Lula. "É completamente diferente fazer reunião com os países ricos antes da crise e depois da crise - os países ricos são como pessoas quando vão para o hospital, mais humildes e modestas." Segundo ele, a crise foi como a queda do Muro de Berlim: "Permitiu à esquerda liberal repensar seu status".

Lula considerou que a transferência de 5% das cotas do Fundo Monetário Internacional (FMI) de países ricos e sobrerrepresentados para países emergentes e subrepresentados foi uma grande vitória para o País.

"Queríamos 7%, conseguimos 5%, isso é mais de 50%, é uma vitória extraordinária para o Brasil", disse, referindo-se ao que queriam os europeus (3%). No Banco Mundial, o Brasil pleiteava transferência de 6% das cotas para os emergentes, e conseguiu 3%. Lula disse que houve muita briga para se chegar ao comunicado final.

NEGOCIAÇÃO

"Foi muito bem negociado", disse. "Para se ter uma ideia, as 22h30 de quinta-feira, no jantar dos líderes, o presidente Obama estava dizendo que não sabia se seria possível chegar a um acordo sobre o Banco Mundial, que teríamos de deixar para o ano que vem; aí, chegando ao hotel, já tínhamos sinais de que haveria acordo também para o Banco Mundial."

O presidente notou apenas que o Brasil havia reivindicado a capitalização do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do banco de desenvolvimento africano, e isso entrou de forma apenas genérica.

Lula disse que, apesar do novo poder do G-20, o organismo não terá poder de ingerência em nenhum país. "O documento de coordenação garante que cada país possa estabelecer suas próprias políticas, não vai haver constrangimento", disse. "A política de constrangimento era antes, quando o FMI ficava mandando os países fazerem ajuste fiscal , e acabava atrofiando as economias."

Lula enfatizou a importância da regulação do sistema financeiro, para que os mesmos erros não sejam cometidos, e o acordo de que nenhum país deve suspender as políticas anticíclicas agora. "A crise não acabou", argumentou o presidente.

Ele afirmou que os líderes de outros países ficaram impressionados com o fato de o Brasil estar gerando 1 milhão de empregos com carteira assinada neste ano, citado pelo presidente durante a sessão plenária.

"Eu lá dizendo que o Brasil vai criar um milhão de empregos com carteira assinada, e vai crescer 5%, foi inusitado", comemorou. "O Brasil tem o que ensinar - nossos sistema financeiro, nossos bancos públicos". Ele falou no encerramento do encontro que faltava definir a Rodada Doha e era necessário que os EUA tratassem dessa questão "com carinho".