Título: Iraque assombra estratégia dos EUA
Autor: Chacra, Gustavo
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/10/2009, Internacional, p. A14

Obama usa com o Irã a diplomacia oposta à de Bush contra Saddam

Um fantasma assombra a nova estratégia americana contra o Irã: o fiasco diplomático do governo George W. Bush, em 2002 e 2003, quando Washington tentou vender à comunidade internacional a inexistente ameaça das armas de destruição em massa de Saddam Hussein. Na época, após seis meses de debates no Conselho de Segurança da ONU, restou aos EUA, isolados, invadir unilateralmente o Iraque.

O presidente Barack Obama faz agora contra o Irã o oposto do que Bush fez contra o Iraque, disse ao Estado Lawrence Korb, especialista do instituto Center for American Progress. Diante do "erro" diplomático dos EUA em 2003, argumenta Korb, Obama centra esforços na "construção de um clima de confiança".

Desta vez, a Casa Branca atua em estreita parceria com Alemanha, França e Grã-Bretanha. Na reunião do G-20 na semana passada, por exemplo, a revelação da usina clandestina que o Irã mantém na cidade de Qom foi feita em um discurso conjunto dos presidentes Obama, Nicolas Sarkozy e do primeiro-ministro Gordon Brown.

Em janeiro de 2003, em meio ao tiroteio diplomático, o secretário de Defesa de Bush, Donald Rumsfeld, desferiu um ataque inesperado contra a França e a Alemanha. Os dois países eram a "velha Europa", dissera Rumsfeld, "e o Leste está conosco".

CAUTELA

Contra o Irã, os EUA trabalham ainda para garantir a credibilidade de suas informações de inteligência (as "evidências" do programa de armas de destruição em massa de Saddam mostraram-se, ao final, todas falsas). Serviços de espionagem ocidentais estão mais pessimistas do que os próprios americanos.

Os EUA, por exemplo, consideram que o Irã congelou em 2003 seu projeto para desenvolver uma bomba atômica. Na contramão, a inteligência alemã afirma que essa busca, na verdade, nunca parou.

A cautela deu resultados, diz Korb. "Os iranianos sabiam que nós (americanos) havíamos descoberto a usina de Qom. E isso foi um passo na direção certa." O especialista aponta ainda que, se Bush insistia na "troca de regime" em Bagdá, Obama defende o "diálogo direto" com o governo Teerã.