Título: Suspeito atribui vazamento do exame a alguém humilde
Autor: Cafardo, Renata ;Mendes, Vannildo
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/10/2009, Vida&, p. A16

Informação consta do depoimento à PF do empresário Luciano Rodrigues, que procurou jornalistas em SP

O capoeirista e segurança Felipe Pradella, suposto mentor da fraude no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), atribuiu o vazamento das provas a "alguém humilde e sem influência na empresa" - referia-se à gráfica onde estavam armazenados os documentos.

A informação consta do depoimento à Polícia Federal do empresário Luciano Rodrigues, dono de uma pizzaria nos Jardins, em São Paulo, que admitiu ter procurado jornalistas para comunicar sobre a violação do sigilo. Segundo ele, Pradella teria feito esse comentário na noite de terça-feira da semana passada. O segurança estava acompanhado do DJ Gregory Camillo de Oliveira Craid. Eles procuraram Rodrigues, que trabalhou quase 15 anos na área comercial da Agência Estado, para pedir a ele que fizesse a ponte com a imprensa.

A PF suspeita que a citação a "alguém humilde" pode ser apenas um blefe do segurança, que se identifica como "Fábio". A PF procura Pradella para interroga-lo e promover o seu indiciamento pelo vazamento, o que já ocorreu com o dono da pizzaria e com Gregory Craid - ambos foram enquadrados com base nos artigos 325 e 327 do Código de Processo Penal por violação de sigilo funcional.

Para a PF, o valor do prejuízo que o escândalo trouxe ao Tesouro - estimado em R$ 33 milhões por causa do cancelamento das provas do Enem - não tem reflexo no enquadramento criminal dos investigados. Na esfera penal o indiciamento independe do montante do prejuízo. No sábado, ainda durante o interrogatório de Rodrigues e de Gregory, os agentes federais foram à casa de Pradella, na Vila Iara, para intima-lo pessoalmente. Os familiares informaram que ele está ausente desde sexta-feira.

Se Pradella não se apresentar até hoje, a PF estuda pedir à Justiça Federal decretação de sua prisão temporária. Os federais reputam fundamental o relato do segurança para verificar se há outros envolvidos na trama ou se ele é isoladamente a peça-chave do golpe.

A PF ainda alimenta suspeitas de que o segurança possa ter sido ajudado por outro funcionário do local onde ficava o cofre com as provas.

COISA PRIMÁRIA

A PF está convencida, nessa etapa do inquérito, que está diante de um grupo de amadores. "É coisa primária", avalia um investigador. O que reforça essa tese, na avaliação dos federais, é o fato de os envolvidos terem procurado repórteres de vários veículos da mídia para tentar vender a papelada.

Queriam R$ 500 mil. "Só mesmo um idiota iria querer vender notícia para repórter", observou o policial. Para a PF, o grupo acreditou que poderia levantar "dinheiro fácil". Segundo Gregory, o segurança disse a um jornalista que uma emissora de TV já teria oferecido R$ 500 mil pelas provas. "Ele (Pradella) queria ver se aumentava o valor", contou Gregory.

Luciano Rodrigues, o dono da pizzaria, afirmou à PF que "intermediou o contato de Gregory e Fábio (Pradella) com a imprensa pois pretendia que fatos graves chegassem ao conhecimento da sociedade". Ele disse que "não teve qualquer relação com a obtenção da prova nem pretendia ter qualquer ganho com sua divulgação".

A PF não viu necessidade de pedir buscas nem prisão dos dois primeiros indiciados. Mas poderá requerer quebra do sigilo telefônico e bancário de Pradella.