Título: Na rotina da embaixada, deposto reza e telefona
Autor: Anna, Lourival Sant
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/10/2009, Internacional, p. A19
Todas as noites, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, se levanta e percorre sigilosamente a Embaixada do Brasil em Tegucigalpa para comprovar que está tudo em ordem, antes de voltar a dormir em um colchão colocado no chão do escritório que usa como dormitório.
Todos os alimentos, roupas e itens de higiene que chegam à sede diplomática são vistoriados por militares indicados pelo governo de facto e cheirados por cães. Ao amanhecer, os hóspedes da embaixada - Zelaya, sua esposa, Xiomara Castro, meia centena de seguidores e quase uma dezena de jornalistas - tomam um café da manhã simples e começam seus afazeres cotidianos.
"Cada um tem uma agenda diferente", disse Doris García, ministra da Mulher de Zelaya, uma das sete mulheres da embaixada.
Zelaya passa grande parte do dia em seu pequeno escritório-dormitório, no primeiro dos dois andares do prédio, dedicado a seus esforços de voltar ao poder.
De início, ocupava um escritório maior no andar superior, mas mudou por razões de segurança.
Ele é assistido pelo advogado Rassel Tomé, pelo político liberal Carlos Eduardo Reina e pelo sacerdote Andrés Tamayo, que dá a comunhão aos zelayistas.
O presidente deposto fala por telefone com líderes estrangeiros e atende ligações de jornalistas de todo o mundo. Também recebeu um bispo, candidatos presidenciais hondurenhos, deputados brasileiros e um delegado da OEA. Sempre que conversa com os jornalistas, coloca seu chapéu de abas largas.
Os seguidores de Zelaya, a quem Xiomar chama de "meus filhos", limpam a embaixada e arrumam o jardim.
Os alimentos são enviados diariamente por sua filha Zoe, que esta semana lhe deu um novo neto que ele ainda não pode tomar nos braços.
Zelaya "nunca come sozinho", contou Doris García. Se tem sede, "bebe um suco de aveia", completou. Sua comida é similar à de qualquer lar hondurenho: feijão, arroz, abacate, queijo.
Diariamente, a ONU leva os alimentos para os zelayistas, enquanto os jornalistas se revezam para comprar almoço e janta, que encomendam a restaurantes.
Os repórteres ocupam um escritório do qual enviam notas e fotos e que lhes serve de dormitório. Os que não têm colchão, dormem no chão.
García contou que na embaixada ninguém dorme de pijamas, com medo de alguma emergência durante a noite, pois receberam ameaças de que os militares entrarão na embaixada.