Título: Só aceito ser julgado por juízes imparciais
Autor: Anna, Lourival Sant
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/10/2009, Internacional, p. A19

Da embaixada do Brasil, presidente deposto diz ao "Estado" que, até agora, não houve avanço no diálogo com golpistas

Manuel Zelaya diz que nomeação de juízes - que seriam responsáveis por julgá-lo - seria "parte do acordo" para uma saída negociada para a crise deflagrada por sua deposição, em 28 de junho.

O sr. se preocupa com sua segurança na embaixada?

Eles garantiram que não vão invadir a embaixada. Entretanto, sempre há um perigo.

O sr. mandou cobrir as janelas com folhas de alumínio?

Para poder falar ao telefone, porque estão interferindo com um bombardeio eletrônico em todas as ligações, e nos afeta também a saúde.

Roberto Micheletti disse que se o sr. aceitar ser julgado e entregar o poder a um conselho de ministros, ele também aceita deixar o poder. Como vê essa oferta?

Na democracia hondurenha, o soberano é o povo. Aqui, não há reis nem monarcas nem regime militar. As ofertas dele são para seguir violando a Constituição. Eu nunca fugi da Justiça. Sou inocente. Por isso voltei. Se tivesse medo da Justiça, não teria voltado. Agora, eu me submeto a uma Justiça com juízes imparciais. Mas os juízes de Micheletti e dos militares não são imparciais.

Então o sr. não aceitaria submeter-se à atual Corte Suprema de Justiça?

Vou repetir a resposta: eu me submeto à Justiça a qualquer momento com juízes imparciais.

Mas há juízes imparciais em Honduras?

Podem ser nomeados.

E quem deveria nomeá-los?

Bom, isso é parte do acordo.

Mas o sr. aceitaria não voltar à presidência?

(Solta uma gargalhada) Há coisas que não se podem negociar. E uma delas é a substituição da soberania popular. Isso não se pode negociar.

Como já estamos muito perto das eleições, para sair do impasse, não se poderia aceitar um governo interino até as eleições?

Isso seria outro golpe de Estado - frente a um golpe, outro golpe. Nós queremos restituir a democracia, não destruí-la.

O sr. acredita que a OEA é suficiente para a mediação, ou seria necessário também incluir a Igreja e a sociedade civil?

Eu creio que o diálogo é a saída, mas o regime não me deixa fazê-lo porque não me permite visitas. Mas um diálogo com respaldo e vigilância internacionais.

O senhor tem falado com o Departamento de Estado americano? Que sinais tem recebido?

Os Estados Unidos e toda a América Latina, Brasil e todos os países estão firmes na restituição do sistema democrático. Tenho falado com todos. Estão firmes.