Título: Brasil juntará reservas até FMI mudar
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Fonte: O Estado de São Paulo, 03/10/2009, Economia, p. B9
País muda se Fundo virar uma espécie de banco central, pronto a fornecer apoio cambial, afirma Guido Mantega
O Brasil poderá abandonar a acumulação de reservas se o Fundo Monetário Internacional (FMI) se transformar numa espécie de banco central, pronto para fornecer apoio cambial em caso de necessidade, sem burocracia e sem negociação, disse ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega. O comentário foi uma resposta à recomendação do diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, para que os países acumulem menos reservas e confiem no Fundo. Até lá, disse o ministro, o País continuará a juntar moeda forte para garantir a segurança de suas contas externas. Em 2006, quando assumiu o posto, havia em caixa US$ 58 bilhões. Hoje há cerca de R$ 220 bilhões.
O governo brasileiro apoia a adoção de políticas para a redução dos desequilíbrios internacionais, um dos objetivos fixados pelo G-20, disse Mantega. Países com superávits muito grandes deveriam adotar políticas corretivas, mas também os deficitários deveriam fazer sua parte. A descrição aplica-se, principalmente, à relação entre China e EUA. Mas a aplicação de nova política pelo Brasil dependeria de mudanças no FMI.
O Fundo teria de estar preparado para fornecer ajuda cambial de forma automática, num esquema semelhante ao acordo de swap firmado entre o BC brasileiro e o Fed, dos EUA, pouco depois do início da crise. Um arranjo desse tipo desencoraja a especulação e aumenta a segurança mesmo sem saque do dinheiro. "O Brasil poderá parar de acumular reservas quando souber que o Fundo dispõe de US$ 100 bilhões ou US$ 200 bilhões para ajuda automática", disse o ministro.
A linha flexível criada recentemente pelo FMI - e já aberta ao México, à Polônia e à Colômbia - não é suficiente, segundo Mantega. Seria preciso habilitar com grande antecedência os possíveis candidatos ao crédito.
Nesse esquema, os países qualificados nem precisariam pedir autorização para usar o dinheiro. Mas o governo brasileiro, disse o ministro, compra reservas não só para garantir a segurança, mas também para reduzir a oferta de dólares. O excesso de oferta desvaloriza o dólar, encarece as exportações e barateia as importações.
O problema seria menor, acrescentou, se todos os países adotassem, como o Brasil, câmbio flexível. O FMI, com apoio do G-20, deveria pressionar seus sócios para seguir esse regime. A referência mais evidente, nesse caso, é à China. Se o câmbio chinês fosse mais livre, o yuan seria mais valorizado e a competição internacional seria mais equilibrada.
As autoridades chinesas, lembrou Mantega, não se opuseram às propostas de coordenação de políticas formuladas pelo G-20, mas não houve, nessas ocasiões, uma referência direta à acumulação de reservas.