Título: Emergentes devem continuar puxando a economia global
Autor: Kuntz, Rolf
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/10/2009, Economia, p. B8
Economistas e dirigentes que participam do encontro do FMI ressaltam o novo papel dos emergentes
ENVIADO ESPECIAL, ISTAMBUL
Os emergentes foram os países mais dinâmicos durante a crise e terão de continuar puxando a economia mundial na próxima fase. Essa é a primeira conclusão prática de todas as projeções e avaliações apresentadas nos últimos oito dias pelos economistas e dirigentes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird). A missão caberá principalmente à China, com expansão estimada em 8,5% para este ano e em 9% para 2010, mas outras grandes economias, como Índia e Brasil, também deverão contribuir para a reativação geral.
Simplesmente não haverá escolha, se os cenários estiverem certos. O consumidor americano não voltará às compras com o entusiasmo de antes, o mercado imobiliário continuará fraco no mundo rico e o crédito ainda será escasso por algum tempo, de acordo com as previsões. O consumo nos Estados Unidos foi durante décadas um dos principais motores da atividade global. Esse motor deve rodar com menos potência nos primeiros anos depois da recessão.
O desemprego médio no mundo rico deve passar de 8,2%, em 2009, para 9,3%, em 2010, segundo o FMI. Em 2007, era apenas 5,4% e chegou a 5,8% no ano passado. As estimativas para os Estados Unidos são de 9,3%, neste ano, e 10,1%, no próximo. Para a zona do euro os números são 9,9% e 11,7%.
O desemprego geralmente permanece elevado e, às vezes, cresce, nas saídas de recessões. As empresas conseguem elevar a produção durante algum tempo com a mão de obra já disponível e só voltam a contratar quando o impulso do crescimento parece mais firme. Também isso contribuirá para retardar a expansão do consumo nas economias mais desenvolvidas.
O comércio cresceu muito mais velozmente do que a produção de bens e serviços durante os primeiros 25 ou 30 anos da globalização. Mas, em 2009, esse comércio deve encolher 11,9%, segundo o FMI, enquanto o produto global deve diminuir 1,1%. No próximo ano, o volume do intercâmbio e bens e serviços deverá aumentar apenas 2,5%. E o crescimento da produção em 2010 está estimado em 3,1%.
O mercado internacional será um ambiente muito menos hospitaleiro do que foi desde os anos 80, e a competição será muito mais dura. A demanda interna será um fator de crescimento bem mais importante do que foi até o começo da recessão. O comércio Sul-Sul também poderá contribuir para o dinamismo das economias emergentes e em desenvolvimento, segundo o presidente do Bird, Robert Zoellick.
APERTO MONETÁRIO
Mas o novo ajuste mundial só funcionará razoavelmente se houver mudanças importantes na economia de alguns grandes países, como a China e o Japão. Nos dois países será preciso aumentar o consumo e diminuir o peso do investimento e da exportação como fatores de crescimento.
O desafio é particularmente difícil no caso da China. A economia chinesa venceu o primeiro impacto da crise e cresceu no primeiro semestre em ritmo equivalente a 7,1% ao ano. Essa reação foi movida basicamente pelo mercado interno. Houve grande expansão do gasto público, principalmente em obras de infraestrutura, e o crédito ao setor privado aumentou 24%.
Mas será preciso apertar a política monetária, num momento não muito distante. O estímulo ao consumo poderá diminuir e, além disso, há muita capacidade ociosa, e a moeda continua subvalorizada. Todos esses fatores apontam para uma saída via exportações.
O governo chinês concordou, aparentemente, com a ideia de se buscar um novo equilíbrio na economia mundial. Esse foi um dos temas importantes da conferência de cúpula do G-20, em Pittsburgh, e também dos pronunciamentos na assembleia do FMI e do Bird. Mas esse novo equilíbrio dependerá de uma China menos empenhada em exportar e mais disposta a importar para atender a um consumo crescente. Falta saber se a partida será jogada segundo esse esquema e há razões de sobra para dúvidas.
A China poderá acabar jogando seu jogo, sem grande mudança de estratégia. Os americanos tentarão exportar mais, para compensar o menor dinamismo do mercado interno. Tudo isso complicará a situação de outros emergentes, como o Brasil, especialmente se crescer o fluxo de capitais para esses países. Isso resultará em valorização cambial e em maior dificuldade para competir internacionalmente.
A hipótese de mais capitais para as economias mais sólidas da América Latina foi mencionada pelo diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, Nicolás Eyzaguirre. Será um movimento normal, argumentou, se as perspectivas de retorno financeiro nesses países forem melhores que as do mundo rico. Nesse caso, uma elevação de juros nesses países será desaconselhável, mas bom ajuste fiscal pós-crise será indispensável.