Título: A discussão que interessa já
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/10/2009, Notas & Informações, p. A3

É imperceptível, ainda, a melhora da projeção do desempenho da economia brasileira em 2009 captada pela Pesquisa Focus, realizada semanalmente pelo Banco Central (BC) para aferir as expectativas dos operadores do mercado financeiro. Na pesquisa mais recente, a projeção passou de crescimento zero para um discretíssimo aumento de 0,01% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. A recuperação do nível de atividade econômica é vigorosa, como mostram os dados divulgados nas últimas semanas, mas ainda não o suficiente para elevar de maneira notável as projeções para este ano feitas pelos departamentos econômicos das principais instituições financeiras do País.

Para o ano que vem, no entanto, as previsões são cada vez mais otimistas. Algumas instituições de pesquisa, como o Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas, calculam que o BC já trabalha com projeções para o crescimento do PIB em 2010 que variam de 4,5% a 7%. As projeções de alguns bancos estão nessa faixa. O Bradesco, por exemplo, prevê aumento do PIB de 5,4% em 2010; o Banco BBM, de 5,7%.

A crise teve efeito limitado sobre a economia brasileira. A indústria foi o setor mais afetado, por causa do grande peso das exportações sobre a atividade industrial, como observou o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore, mas o impacto da crise foi bem menor sobre a agricultura e pouco notado no setor de serviços, que emprega quatro vezes mais do que a indústria. Assim, a recessão, que fez cair o emprego no mundo inteiro, teve pouco impacto sobre o mercado de trabalho no Brasil.

Por causa disso ? e também em razão de medidas adotadas pelo governo para estimular o consumo interno ?, o Brasil está saindo da crise antes dos países industrializados e de outras economias em desenvolvimento.

O ambiente interno já está mudando. Passado o temor de uma crise profunda e longa, surge outro entre os economistas, como mostrou reportagem de Fernando Dantas que o Estado publicou domingo. Trata-se do receio de que a demanda cresça bem mais depressa do que a capacidade produtiva do País, o que pressionaria a inflação. Se isso ocorrer, advertem, o Banco Central terá de agir, endurecendo a política monetária, pouco tempo depois de tê-la aliviado de maneira expressiva.

De janeiro até agora, para conter os efeitos da crise, o BC reduziu a taxa Selic de 13,75% para 8,75% ao ano. Se a economia crescer no ritmo que já está sendo previsto, e não houver investimentos adequados ? na velocidade e no volume necessários para atender à expansão da demanda ?, é possível que o BC tenha mesmo de rever a política monetária que adotou nos últimos meses

Por causa da recuperação da economia numa velocidade surpreendente, economistas de algumas instituições financeiras já discutem em que nível estará a Selic no início de 2011. Prematura, a discussão sobre a Selic daqui a 6 ou 12 meses só pode se basear em suposições ou projeções.

O que há de concreto ? e precisa ser discutido ? são as ameaças contidas em algumas medidas adotadas pelo governo, que tiveram efeito positivo sobre a atividade econômica e mitigaram os efeitos da crise, mas, por serem permanentes, tendem a ter efeito contrário daqui para a frente. O aumento dos vencimentos do funcionalismo federal e dos benefícios previdenciários estimulou o consumo de uma parte da população e evitou que a atividade econômica se retraísse de maneira aguda. Mas esses benefícios não poderão ser revistos quando a economia estiver aquecida, como se espera que esteja em 2010, e contribuirão para aquecer ainda mais a atividade.

"Medida expansionista é muito bom num ano como 2009", reconhece o economista Alexandre Schwartsman, do Banco Santander, mas, em 2010, quando não será mais necessário estimular a expansão, ela continuará funcionando como se nada tivesse mudado. "Alguém tem de agir para compensar." Nesse momento a política monetária terá de ser mais dura, como advertiu o próprio BC.

Não se trata de fazer "terrorismo fiscal", como acusou o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Trata-se apenas de se preparar para conter possíveis consequências nocivas de decisões do governo.