Título: Polícia Federal indicia mais 3 acusados de vazar a prova
Autor: Fausto Macedo,
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/10/2009, Vida&, p. A16
Agora são 5 envolvidos no caso; para PF, grupo é "amador, primário" e sem vinculação política
A Polícia Federal indiciou criminalmente ontem mais três acusados de envolvimento no escândalo do vazamento da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): Felipe Pradella, de 32 anos, apontado como mentor da trama, e dois colegas seus, identificados por Felipe e Marcelo. Pradella e seus companheiros de seção foram admitidos por empresa terceirizada para serviço temporário na gráfica, por uma semana.
Segundo a PF, eles trabalhavam no mesmo setor - segurança, conferência e manuseio dos cadernos de questão do Enem. Foram enquadrados por violação de sigilo funcional e peculato, crime atribuído a servidor público ou a quem exerce função equiparada. A pena para esse delito vai de 2 a 12 anos de reclusão.
Agora são cinco os suspeitos da PF na execução da trama, desde o furto do documento até os contatos com veículos de imprensa aos quais pretendiam vender a prova. Dois investigados haviam sido enquadrados pelo vazamento: o empresário Luciano Rodrigues, dono de uma pizzaria nos Jardins, e o DJ Gregory Camillo Craid.
A PF não viu necessidade de pedir a prisão do grupo porque todos confessaram o crime e se apresentaram espontaneamente. Para a polícia, o caso está esclarecido. A PF agiu rápido, por ordem de seu diretor-geral, delegado Luiz Fernando Corrêa, e de seu superintendente em São Paulo, Leandro Daiello Coimbra. Em menos de 72 horas de investigação intensa e ininterrupta, a PF identificou todo o grupo - que reputa "amador, primário" e sem nenhum tipo de vinculação política.
Sob forte pressão, ameaçado de prisão temporária, Pradella apresentou-se à PF e depôs por cerca de quatro horas. Ganhava R$ 60 por dia. Achou que poderia arrecadar R$ 500 mil com a venda dos papéis. Sua advogada, Claudete Pinheiro, declarou: "Felipe teve noção de que o trabalho na gráfica era muito falho, uma bagunça, quando teve acesso à prova. Não havia revista na entrada nem na saída. A PF está verificando que não havia controle na gráfica Plural."
A advogada define seu cliente como "pessoa comum, não é nenhum criminoso contumaz, nenhum bandido". Ela é taxativa: "O Felipe (Pradella) não está vinculado a nenhum partido de oposição, não quer derrubar ministro. Ele não sabia que a matéria que queria vender era um ilícito. Só queria denunciar a fragilidade da segurança da gráfica. O Felipe não furtou a prova, ele teve acesso à ela. Alguém admitiu ter furtado, mas não posso falar pelos demais acusados."
Em nota, a Plural Editora e Gráfica assegurou ter cumprido "rigorosamente todas as determinações do contrato em relação a segurança do processo". A Plural entregou à PF 136 cópias de DVDs com imagens de toda a operação de impressão e acabamento, feitos pela gráfica, e de manuseio das provas, feito pelo Connasel. "Todos os envolvidos no vazamento da prova do Enem não são empregados nem foram contratados pela Plural e atuaram na fiscalização e segurança dos trabalhos sob o comando do Connasel."
A PF apurou que o furto da prova teria ocorrido na última semana de setembro na esteira da impressão. Os suspeitos teriam se aproveitado de um ponto cego no sistema de vídeo da segurança. Como viu contradições nos relatos, a PF submeteu Pradella, Felipe e Marcelo a uma acareação.
Os advogados Luiz Vicente Bezinelli e Manoel Antonio de Lima Júnior, defensores do dono da pizzaria, disseram que os depoimentos de ontem "mostram claramente que Luciano Rodrigues não teve nenhum envolvimento com essa tramoia."