Título: Encargos financeiros chegam a 35% do preço
Autor: Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/10/2009, Economia, p. B3
As ofertas milagrosas de parcelamento em 12 ou 15 vezes sem juros embutem na prática pesados encargos no preço anunciado, imperceptíveis ao consumidor. Uma simulação feita pelo professor de matemática financeira do Insper (antigo Ibmec), José Dutra Vieira Sobrinho, com as ofertas das grandes redes varejistas e levando em conta a taxa média de 5,99% ao mês de juros do comércio, pesquisada pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), indica que os encargos financeiros representam de 30% a 35% do preço anunciado do produto.
Na prática, uma TV de LCD de 32 polegadas, parcelada em 12 vezes de R$ 133,33 sem acréscimo, que segundo o anúncio sai por R$ 1.599,99 à vista ou a prazo, carrega R$ 481,56 de juros embutidos no preço. É 30% do valor anunciado do produto.
Dutra pondera que a taxa usada na simulação é alta, 5,99% ao mês. Mas ela representa a média cobrada pelas lojas. De toda forma, independentemente da magnitude da taxa de juros, ele frisa que não existe parcelamento em 15 vezes sem juros. "O dinheiro tem um custo no tempo", diz o professor.
Essa também é a avaliação do diretor de relações com o mercado das Lojas Cem, Valdemir Colleone. A rede anuncia parcelamento em até seis vezes sem juros no cartão. "Fazemos isso contra a nossa vontade, é uma operação cara", diz ele, sugerindo que é uma estratégia puxada pela concorrência. Segundo Colleone, é possível anunciar o produto em até 50 vezes sem juros. "Tudo depende do preço", diz o executivo.
Dutra recomenda que o consumidor pesquise muito antes de comprar. O importante, diz ele, é primeiro escolher o prazo de financiamento e pesquisar o valor das prestações, já que a taxa cobrada não é explicitada.
O professor ressalta que, pelas simulações feitas com os preços anunciados, o consumidor disposto a pagar à vista deve pedir desconto de 30% a 35% no preço, o que corresponde à parcela dos juros no valor anunciado. Segundo Dutra, a perspectiva a médio prazo para o comércio é que ele trabalhe com dois preços: à vista e a prazo.
RISCOS
Anunciar a venda a prazo sem encargos pode parecer uma estratégia arriscada para as lojas, mas na verdade não é. Na avaliação de Dutra, a margem financeira embutida no preço anunciado é suficiente para cobrir qualquer desarranjo financeiro que possa ocorrer num prazo tão longo, de 15 ou 17 meses.
Na opinião do vice-presidente da Anefac, Miguel Ribeiro de Oliveira, haveria risco se ocorresse uma reviravolta na economia. "Mas a realidade é outra", observa o economista. "Vamos crescer pelo menos 5% no ano que vem." Essa também é a avaliação do economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges. Diante das boas perspectivas, ele acaba de rever para cima a projeção de crescimento da economia brasileira para o ano que vem, de 5,2% para 5,5%.
Mesmo que o Banco Central (BC) volte a subir os juros em 2010, esse movimento deve ocorrer só na segunda metade do próximo ano, pondera Borges. Até lá, lojas e bancos terão muito tempo para desfrutar do cenário favorável.